Anotações do Caderno Escuro de Frieditz

DSC09588 (1) Não acreditamos no mundo à nossa volta. Acreditamos em nossos medos, ódios, anseios, em nossos problemas. De certa forma, substituímos o mundo real e independente de nós pelos nossos sentimentos interiores. O mundo externo torna-se apenas um lugar onde podemos colocar os pés, uma coisa onde podemos agarrar quando tropeçamos.  Não suportamos a indiferença do mundo em relação aos nossos problemas, então escolhemos retribuir com uma indiferença humana. O problema é que nossa indiferença não é pura: é intencional; a da natureza, não.

(2) Às vezes apetece-me dormir na rua. Como agora: o sol fraco, o vento forte, um maço de cigarros e uma chávena de café. No entanto, um senhor, o barbeiro, passa por mim e diz: “Estás com sono”. Respondi que não: “É preguiça”, mas não fui exacto. Apenas apetecia-me dormir na rua. Esta coisa tão difícil de explicar aos outros.

(3) Duas casas e uma árvore estão a formar com seus ângulos um pedaço azul do céu que não pode ser percebido de todos os ângulos. Apenas deste.

(4) Hoje é um dia como outro qualquer. Não é fascinante?

(5) Não gosto de barulhos repentinos. Por exemplo, uma moto que é ligada e acelerada inutilmente, antes de se mover. São sons inúteis. Um desperdício imperdoável de silêncio.

(6) Outro exemplo: um senhor estava a gritar no Largo de Trancoso: “Eu comi à tua casa, não sou burro”. Berrava absurdamente. Não percebi motivo algum para crer que ele seja burro (preciso de evidências para crer que alguém seja mais ou menos burro), mas tenho a certeza de que é mal educado. Desperdiçar silêncio é um dos sinais mais visíveis da falta de educação. Um sinal irritantemente evidente, diga-se de passagem.

Dei por mim já adulto

ariadne-theseus Um casulo de solidão em torno, uma nódoa de vazio nos panos brancos da alma, uma escada que sobe infinitamente para dar em qualquer lugar desconhecido; eis o quadro pendurado na parede rachada e antiga que encaixota o ser estirado sobre o chão, um chão de tacos riscados pelos passos de muitos pés, um desenho sem nexo feito um mapa sem tesouro, um labirinto sem saída. Melhor seria se houvesse um Minotauro à espera com os dentes arreganhados e as garras sujas de terra, os olhos vermelhos e o vapor do instinto rufando pelos pulmões ansiosos numa espécie de toque de fuzilamento. Eu encostado à parede

— Tirem esta venda dos meus olhos

o Minotauro apontando os dentes uns para os outros, o pelotão de fuzilamento

(de onde veio este pelotão que está aqui, dentro do casulo?)

acertando os olhos ciclopes de suas armas na minha direcção, justo quando eu abri um sorriso de satisfação que foi tomado como prova qualquer de insanidade

— Isto não é normal, não podemos atirar…

Eu de repente muito a sério para o soldado da extrema-esquerda

— Perdão

quando imediatamente a seguir, em segundo plano, o Minotauro arrasta os pés desenhando mais riscos no chão de taco, mas eu desiludido porque mitos não podem nos fazer mal e todo mal, desde esse instante, ficando apenas sob a minha própria responsabilidade.

Foi quando descobri que a minha visão horizontal fazia com que o piso de madeira se estendesse numa ilusão de tabuleiro de xadrez, deixando-me derrubado feito uma peça vencida com as mãos postas em cruz e as palmas vermelhas da força que é preciso fazer para se levantar. Quando me pus de pé e abanei com as mãos a terra da terra de mitos que me havia enfiado, olhei em torno e abri a janela do casulo de solidão. Com o braço direito derrubei o pelotão de fuzilamento de plástico e com o esquerdo apaguei a fumaça da mentira do Minotauro

— Não me recordo como caí, mas lembro-me bem de como posso levantar

então guardei os brinquedos e desconectei da cena quando dei por mim já adulto.

O vento que insiste em bater no vidro dos olhos

vento[1] Sempre tive associações com o vento. Lembro-me de tardes em que ficava sentado na calçada de cimento entrecortado por sombras de amendoeiras e de repente tenho as amêndoas brasileiras

amargas e imastigáveis, sem que eu atine com o motivo de se chamarem amêndoas

a caírem sobre a cabeça e o vento a baloiçar um punhado da minha franja. O cheiro do vento morno que eu acreditava ser o mesmo que havia percorrido desertos minutos antes de chegar ao meu rosto

o vento levante, carregado de mortes e animais que se desenterram a si mesmos quando anoitece

e a desilusão de descobrir que era impossível tal velocidade e estabilidade dos ventos.

Depois, as tantas incursões por caminhos de mistérios, os quatro ventos a afiarem os dois gumes da espada ritualística e os meus acenos com os dedos tentando mover a natureza que eu supunha às minhas ordens

sempre o vento…

Agora a tarde, em Trancoso, estive a ouvir algumas histórias do vento e a fiscalizar o trabalho das nuvens. Reparei no redemoinho de flores que se formou na calçada à minha frente, uma espécie de brincadeira da natureza.

Uma pessoa passou do outro lado do Largo e recebi um aceno com os dedos e um sorriso que me trouxeram lágrimas ao vidro dos olhos

o vidro sempre muito resistente

sem que eu esperasse que tal acontecesse. Um sorriso simples e simpático, um gesto rápido, mas carregado em contínuo com os passos apressados e com um propósito predefinido bem ajustado ao tempo

o vidro resistente, apesar de embaciado

foi uma cena inteira para o único observador disponível. Foi então que a dialéctica interior se quedou esgotada, sem conclusões e, no entanto, sem me abandonar

o cadáver dialéctico estendido atrás do vidro dos meus olhos

o vidro desistindo, impaciente

como parte de mim, mas que não depende de mim. Conforme a amêndoa brasileira de minha infância, que não tem o direito de se chamar amêndoa: amarga, imastigável e, ainda assim, impossível de ser engolida de uma só vez.

Não trouxe nenhum raio comigo

Noite passada, eu arrumei a cadeira junto ao muro que dá para a rua

(um murinho baixo, com grades proporcionais).

Levei comigo cigarros, uma chávena de café e um copo de vinho branco. Sentei metade de mim debaixo da varanda e a outra metade sob o sereno. Cruzei as pernas em cima do muro, puxei do cigarro e passei horas a olhar para o céu estrelado. Havia uma batalha impressionante entre as estrelas e as nuvens

(a lua não se via)

da qual as estrelas saíram vencedoras.

Nunca tinha estado naquele ângulo a olhar para o céu, no entanto, era como se o canto já fosse meu desde os anos de infância. Isto foi na casa de minha avó materna, em Portugal; então, como nos meus domingos de miúdo eu ia para a casa dela no Brasil, estabeleci uma ponte entre a pausa dos anos e a mudança geográfica.

Ouvi o som da noite

(os grilos e os outros bichos do mato alguém os trouxe por mim, pois eram os mesmos sons de quando eu era miúdo)

e ao ver alguns aviões a riscarem com um pinguinho de luz no céu noturno

(eles nem aí para a batalha que atravessavam, os arrogantes)

era como se escrevessem alguma mensagem para mim, aquietando-me o espírito. Fixei tanto o olhar que fui puxado por eles: acompanhei os aviões e fui engolido pelas nuvens, encontrei uma arca repleta de raios para a próxima tempestade e uma orquestra de anjos a ensaiarem trovões em si bemol. Estiquei os braços e agarrei mais forte ao avião

(eu ainda não tenho asas mas em breve terei, pois me prometeram um par delas, novinhas e com design personalizado)

e assim que deixei aquela nuvem joguei-me sem pensar nas consequências. Na medida em que ia descendo avistei a ponta de um cigarro aceso e me descobri com um sorriso de lado e os olhos esgazeados para o céu de onde eu caía. O impacto foi silencioso e suave. Deitei-me em mim mesmo e passei mais algumas horas a relembrar das viagens que já fiz nesta vida e que não me custaram nada, apesar de impagáveis. Depois peguei os meus acessórios e entrei em casa como quem chega de longe. Todos já dormiam. Antes de ir deitar fui lavar o chamuscado dos aviões e reparei num si bemol que veio agarrado no meu cabelo.

Foi então que me dei conta: eu podia ter metido a mão dentro da arca de raios e ter trazido alguns comigo. Tenho a certeza de que me vão fazer falta.

De escritor e de loucos, quantos de nós temos, de cada um, um pouco?

de escritor e de loucos
quantos de nós
temos de cada um
um pouco?

se ao andar pelas ruas
ao tentar distrair-me
crónicas, contos, romances, poesias
debatem-se na imaginação, lutam
tanto desespero pelo espaço
tanta discussão, frenesi, enfim,
forma-se um tumulto pela atenção
que só eu sei o que passo

de escritor e de loucos
quantos de nós
temos de cada um
um pouco?

E depois não sabem o motivo da enxaqueca dos vendavais

Um homem sentado à varanda com um cão ao lado: eis a imagem da serenidade de uma tarde enevoada na qual, não muito distante, o barulho intermitente de uma enxada insiste em demonstrar o movimento do mundo. As nuvens estão a descansar, coitadas, da brincadeira de formar tantas imagens para que ninguém mais as perceba

— Onde foram parar as crianças que não mais em cadeiras de baloiço pelos quintais a descobrirem-nos as formas por entre os ramos das amendoeiras?

e depois não sabem o motivo da enxaqueca dos vendavais. Quisera eu mostrar aos miúdos como é fácil passar as tardes assim sem vídeo games, portáteis e outras manetas; passar as tardes evitando enxaquecas de vendavais das nuvens que não desistem nunca. Dizer-lhes que seria melhor ficarem à varanda com um cão ao lado e se quisessem perturbar a ordem de alguma coisa

(Os miúdos não se conformam com a ordem das coisas)

que fosse cantando The Sad Song do Fredo Viola intermitentemente, baloiçando a cabeça à contrariar a enxada sem graça do vizinho, pois que andam em falta as cadeiras de baloiço que víamos nos quintais das avós, daquelas que pareciam brotar debaixo das amendoeiras só para embalar as tardes de todos os netos do mundo, enquanto eles ficavam a descobrir centenas de formas nas nuvens, e as nuvens em paz connosco.

O escritor finge que se esquece de si mesmo

Escrever é riscar com as unhas o vento que bate ao rosto, com gestos estranhos, muitas vezes exagerados, quase sempre incompreensíveis à maioria das pessoas. Porém, ao prestar-se mais atenção, vê-se sempre no rosto do escritor um certo sorriso de lado, uma certa ironia, algum desdém. O mundo inteiro se ajusta às suas mãos enquanto escreve. Depois, a obra já publicada ou esquecida sobre a mesa, ele vai até à varanda, espreguiça-se, boceja, acha qualquer paisagem deslumbrante, e finge que se esquece.

O universo cabe dentro de dois corpos que trocam estrelas cadentes

Luzes e mais luzes a piscarem no alto dos montes: carros que indiscretamente procuram a discrição nos ermos da aldeia. Cá embaixo, nós, simples mortais desabituados ao isolamento, neste universo horizontal e fraldário, invejamos-lhos a audácia simples e a solidão escolhida.

Casais que se escondem dentro de caixas de metal luzidio, entre eucaliptos e pinheiros discretíssimos, envidraçados, embaciados por estarem aquecidas demais as palavras e os olhos.

A escuridão das altitudes, os olhos das caixas de metal já apagados, a indiscrição consolidada na discrição conseguida, tudo isto desaparece quando o mundo se torna imenso ao atravessar a ponte que existe entre dois corpos.

Cá em baixo, alguns velhos a invejarem a audácia da juventude que não se aguenta, impingindo-lhes uma culpa que os casais na flor da idade desconhecem ou fingem desconhecer em benefício da irresponsabilidade, esta que sempre será perdoada com a sucessão dos tempos e com o advir da maturidade. Outros velhos a torcerem-se de satisfação, revivendo seus tempos de altitude e isolamento, quando ainda nem existiam caixas metálicas luzidias e tudo era de um frio insuportável, mas suportado em benefício das mesmas irresponsabilidades e da mesma esperança no porvir amadurecido.

Depois, os olhos das caixas metálicas acendem-se novamente, mas seus passageiros ainda não enxergam nada lá fora: os olhos deles ainda não se desprenderam um do outro, olhos que trocam faíscas, mais luzidios do que o metal do automóvel que os carregam monte abaixo. Qual frio, qual motor, qual farol a chamar a atenção, qual mundo, qual nada: o universo passa a caber dentro de dois corpos, dois corpos a trocarem estrelas cadentes que atravessam cortando o espaço, a perderem-se nos buracos negros dos olhos de dois jovens apaixonados.

Da minha falta de franciscanidade

Sonhei que andava numa loja de animais escura e entulhada de coisas, comprando dois peixes Acarás-Bandeira de cor lilás para juntar aos dois vermelhos que eu já tinha em um aquário na minha casa do sonho. Depois, comprei dois gatos negros e raiados de cinza que pareciam linces, mas um deles acabou fugindo. Consegui capturá-lo de volta e coloquei cada um deles em sacos plásticos transparentes: ambos rasgaram os sacos e fugiram, primeiro um, depois o outro. Em seguida, encontrei um papagaio azul numa árvore no pátio de uma padaria. Tentei pegá-lo, mas ele voou e não consegui. Depois, acordei.

Estou há dois dias com esse sonho na cabeça.

Cada livro é um saco cheio de coisas

Eu gastando tantas letras e a pensar que deve haver um limite no Infinito, visto que no infinito não há tempo e as coisas por lá todas terminadas, em sua forma definitiva. Jogassem-me lá e eu perguntava

— Olha, quantas letras eu escrevi?

No entanto, depois de voltar ao presente, se eu ainda vivo, com certeza mais angustiado, anotando letra por letra, uma cifra a crescer e eu com os dedos disciplinados, deixando passar apenas as palavras necessárias e indispensáveis, procurando resumir sentenças e nas sentenças capítulos inteiros, palavras curtas, sentidos longos, eu a encher as palavras como quem força a quantidade de coisas dentro de um saco pequeno quase a rebentar, cada saco um livro e eu todo cuidados a entregar aos leitores

— Perdoem-me, são apenas poesias

que a poesia deve ter sido inventada por alguém que de certeza andou pelo infinito e de lá para cá todo preocupado e mais inteligente que eu, mais habilidoso, a inventar a poesia para economizar as letras e ampliar os sentidos até não mais poder. Então cada livro um saco cheio de coisas imaginadas até à boca, de sentidos longos, e nós, coitados, numa dieta dolorosa de letras a enfiar tudo ali dentro, as pessoas, dias e mais dias, tentando decifrar o que escrevemos, sorrindo quando nos entendem, chorando quando nos entendem e indiferentes quando nada lhes faz sentido. Os que não entendem deixando o saco ficar por ali, no canto da sala quase a rebentar, até que uma criança o encontre e diga baixinho, com os olhos arregalados:

— Um saco cheio de mundos!

E o sentido das coisas, sabemos bem, no fim nunca se perde.

Do tamanho e do peso das coisas

Disse a minha mãe, agora ao almoço

— Lembro-me perfeitamente do gosto de um queijo que eu comi há quarenta anos na Igreja

então passei a lembrar dos gostos e cheiros que também guardo perfeitamente, dos quais basta uma palavra para que retornem ao nariz e à boca.

Ela continua

— Era um queijo que vinha dentro de uma lata. Na época parecia-me que a lata levava cinco quilos de queijo, hoje não sei, devia ser um quilo, mas eu era pequena, então hoje não sei…

Fiquei a pensar nessa questão da quantidade e do peso das coisas versus nosso tamanho e força que aumentam com o tempo, coisas que eu, quando pequeno, também achava tão grandes e pesadas e hoje, eu maior e mais forte, já fico em dúvida; minha casa, cujos cómodos pareciam tão grandes e os brinquedos pequeninos pareciam do tamanho da gente e que agora já se me afiguram tão minúsculos e imbrincáveis à sério.

Tudo era tão grande e fascinante, e as coisas vinham já tão recheadas de histórias e brincadeiras que bastava pegá-las para logo virem enredos enormes e a gente a tarde inteira a brincar no chão da sala que nem existia calor ou frio, pois andávamos em outros mundos dentro de nós

tão ricos

(nós e o mundo ricos, depois, quando adultos, empobrecemos tudo)

e aquilo nos fartava imenso. Tínhamos as chaves para dois mundos, e nós no meio, atravessando daqui para ali assim num segundo

(num estalo dos dedos)

que nem sei como mudamos tanto com o tempo e estragamos o mundo vendo coisas que não são a sério, e no entanto matando, morrendo, entediando-nos com elas como se a culpa fosse das coisas, e não as coisas, nós é que ficamos gordos de culpa. As coisas, coitadas, andam ali pelo chão na mesma, e nós tão grandes que custa-nos agachar para pegá-las, custa-nos agachar e abrir a caixinha invisível que elas guardam e encontrar brincadeiras, cheiros, pesos e medidas diferentes, bem mais alegres e certas do que aquelas que todos nós podemos jurar que são as do mundo que nos acostumamos

— Enganámos-nos, o mundo real é aquele dos pequeninos, nós é que crescemos em demasia e turramos as coisas.

O mundo real é pequeno e cheio de enredos, o quotidiano é que é belo: seus detalhes abrem caixinhas invisíveis que as coisas trazem escondidas, e uma carinha das coisas, uns olhinhos marotos a dizerem-nos

— Tenho muitos segredos, sabia?

a instigar a nós todos, gentes tão grandes, tão distraídas que deixamos as coisas a falarem sozinhas feito loucas

— Nós todos loucos passando adiante com os olhos esgazeados para o nada e esbarrando nas coisas cheias de brincadeiras à sério

tão burros

(perdão, mas a sério)

tão mesquinhos e sem tempo

(crentes que mandamos no tempo para dizer que não o temos)

e tão grandes e inúteis, cegos a procurar pelo mundo com as garras abertas, abrindo caminhos

(qual caminho? que sabemos nós sobre os caminhos?)

a agora já não sei se a lata do queijo da Igreja que a minha mãe comeu tinha um quilo ou cinco quilos, que é o que parecia à minha mãe porque ela era pequena, mas estou quase certo que

(espera, deixa-me pegar uma coisita ali no chão que está a chamar-me com os olhinhos marotos)

quase certo não, eu tenho a certeza que aquela lata trazia cinco quilos de queijo dos bons, com certeza que sim!, e era uma delícia de queijo, um sabor inesquecível, como nunca comemos desde então.

Da impossibilidade de acertar os relógios

Qual a idade do tempo? Qual não seria a alegria de assistir ao primeiro segundo de sua existência? E nós, seres humanos, cativos do tempo, sem poder imaginar como seria antes desse primeiro segundo, o que havia, o que haveria de estar em semente na mente do Logos,

o Logos ali

(sempre o imaginei em um lugar sublimemente alto, inalcançável ainda, pois antes do Verbo se fazer carne Ele só espírito e eu sem saber como situá-lo, visto que o espírito é um não sei o quê que não se mede e que dispensa os lugares)

do imensuravelmente alto

— Fiat Lux

Eu a imaginar como Ele pode ter dito a célebre frase se para dizê-la leva-se algum tempo, pensando para com a minha consciência

— Ao dizê-la, foi criado o tempo

e acreditando que o primeiro segundo da existência do tempo foi preenchido pelo “F” do Fiat.

Olho para o meu relógio de pulso e sei que nunca poderá estar certo, pois eu não o pude acertar pelo “F” do Fiat, eu não estava lá, e nenhum relógio agora me parece possível de bater correctamente os segundos, sinceramente

— O que isso importa?

importa sim, senhora consciência, pois queria ter o meu de pulso certinho com a batida do universo, e quando chegasse ao fim a corda do mundo queria que o meu parasse da mesma maneira, pontualmente no fim das coisas que é assim que tem de ser com tudo que se acaba: no tempo certo

— Deve ser por isso que só Deus sabe o fim dos tempos, o Único que tem o relógio certo desde o primeiro segundo de todos os segundos até o último de todos os tempos

Desanimas-me consciência, acabas comigo, já que nunca poderei acertar o tempo e agora eu perdido a achar inútil acertar os ponteiros, inútil usar um relógio, inútil olhar para o sol e perseguir às suas sombras contando os riscos no chão, e ser pego pela morte a qual deve funcionar lá pelos segundos certos e eu atrasado ou adiantado nas horas, de repente

— Acabou teu tempo

mas eu sem culpa por já ter nascido assim com os ponteiros errados, mas a morte não espera, visto que funciona pelo relógio certo, nem um segundo atrás ou adiante.

Eu a apontar desesperado para o pulso vazio, na marca branca onde eu trazia em outros tempos um relogiozito de pulso arranhado que não valia nada e a morte sem me deixar sequer falar para que não atrase o seu Fiat Lux ao contrário.

Os amigos

— Chegou a vez dele, não teve jeito…

Sim, pois, não tem jeito algum de atrasar ou adiantar quem traz seu relógio acertado desde o primeiro segundo no primeiro “F” do Fiat, quando o Logos decretou os tempos por tempo limitado e nos concedeu a ciência dos relógios, mas não a dos tempos certos, uma ausência fundamental e que nos deixa assim à deriva.

Matei o meu marido sim senhor

Matei o meu marido sim senhor, e daí? Andava já ressequida pela vida, abandonada junto aos móveis da casa e

(casa? isto não se parece com uma)

já não esperava nada de ti Pedro Afonso, nada, pois só ouvia-te a chamar-me pelo nome quando chegavas bêbado já tarde da noite e não era bem tu que chamavas-me, era a fome ou algo dentro da tua barriga, um bicho que rosnava para mim

— Sónia

e se por acaso demorava-me por estar fazendo algo aos fundos da casa

(insisto que não se parece com uma)

vinhas-me já a berrar

(não tu, algo que vinha de dentro de ti, da tua barriga)

a bater-me, eu a correr e aqueles passos rápidos que custavam-me visto que sem vontade de atender-te, de olhar-te, de querer-te menos que aos móveis que não eram móveis, a sala que não era sala dentro de uma casa que não se parecia com uma: a minha vida contigo não dava nem uma frase de pôr naqueles pratos de pendurar em paredes de cozinha

(tão feios, tão cafonas)

daqueles que esquecemos a encherem-se de gordura para dar com eles anos depois caídos atrás da geladeira ou de um móvel qualquer.

Por isso matei-te, e mataria quantas vezes fosse preciso, mais e melhor, com requintes de crueldade feminina como costuma-se dizer

(sou mulher, lembras-te?)

o tipo de ódio frio que arrefece um fósforo aceso apenas com um olhar de soslaio, eu que sou mulher sem que alguém notasse, mas agora fico com a casa que não se parece com uma, eu mesmo a chamar pelo meu nome

— Sónia

a dar comigo satisfeita por ser eu mesma a chamar, mesmo que ninguém, mesmo que apenas eu a andar com calma pelos cómodos

(não são bem cómodos, mas algo parecido)

enquanto todos pensam que partiste desta para pior ao cair sobre o ancinho por conta de um ataque no coração e até que não está muito distante a verdade já que tinhas mesmo um problema no coração

(Foi o bicho que o comeu, Pedro Afonso?)

um problema comigo que aturava-te e um vazio o qual eu podia ter ocupado mas não, eu antes uma empregada, eu uma cozinheira, eu uma coisa qualquer para ser chamada aos tapas e aos berros por algo que não se parecia contigo em novo, um bicho na tua barriga

(é como lembro de ti, vejo-te assim)

uma barriga imensa que abri para ver se calava o que andava ali dentro e naquilo de tentar calar ao bicho calei-te todo.

(eras um bicho ou tinhas um bicho?)

Eu aqui tão tarde da noite a imaginar-te no teu túmulo

(teu não, perdão, o túmulo do bicho que trazias na barriga, agora silenciosa como convém a uma boa e educada barriguinha de respeito)

para teu desgosto Pedro Afonso, sentada numa cadeirita junto à mesa para jantar como se fosse em cima de ti, e apesar da cadeira mal assentada

(baloiça um cisquito)

soube-me bem tanto a comida quanto o vazio numa casa que não se parece com uma e que conquistei inteira para mim com o teu silêncio.

Breves instantes quotidianos, seguidos de um ponto final.

Uma tempestade sem tamanho, que desaba do céu sobre as cabeças loiras e castanhas das casas, faz com que o cão, protegido e com os olhos fixos nas nuvens, ladre intumescido e rosne impropérios a um São Pedro irado. Os animais não aceitam a prisão imposta pelas contrariedades atmosféricas. Os homens aproveitam-se para acolherem-se em suas casas ou acabam por sofrer, vitimados pelas enxurradas, que são como esteiras rolantes a levar os seus pertences, as suas vidas, suas memórias, uma correnteza desumana; enquanto o que resta – isto ninguém os tira – são olhos enevoados que observam, silenciosos, rasos de uma chuva interior salgada que inunda peito abaixo.

Os pinheiros e eucaliptos na crista dos montes, despenteados, curvam-se, resistindo soberbamente. Árvores esguias que metem medo aos pássaros, que partem como que lançados de imensas catapultas verdes.

Através da janela, vejo um rosto envidraçado na casa ao longe. Uma mulher que reza ou revive ao mover os lábios, cuja respiração vai embaciando o limite transparente do mundo, um círculo fosco e quente, contrastando com todas as possibilidades além, no espaço que nos separa. Repentinamente, traça semicírculos no vidro, ameaça rabiscar nomes, iniciais, e um sorriso à vontade se transforma em denúncia de segredos bem guardados das pontas dos dedos para trás. Depois, afasta-se; e então as suas marcas deixam de existir aos poucos: vidas e mais vidas à salvo dos meus olhos e do meu curto juízo.

Tão depressa como veio, a tempestade despede-se. Nuvens imensas abrem passagem para o sol, que chega como o pai que encontra os filhos no flagrante de um desastre. Expulsa-os ainda aos raios e bufa enfastiado: o tempo não estava para brincadeiras. Uma breve arrumação e tudo retorna à sua paz habitual: o cão deixou de ladrar, convencido; a mulher esqueceu o limite transparente do mundo; as árvores balançam levemente, num gesto de arrependimento, chamando os pássaros de volta; e eu, fascinado por todos estes detalhes quotidianos, ponho o ponto final e vou à vida.

Um breve torpor dionisíaco

Sentei-me rente à lareira. Sinto o sabor efervescente do tinto na boca; solto a fumaça, antes aprisionada no cigarro, para que se junte ao lume e suba chaminé acima e, depois, vencido pela ociosidade, sinto o calor a queimar o rosto e aquiescer as ideias. Cenas improváveis até bem pouco tempo atrás… Cenas desejadas e, por isso mesmo, agora, vividas como quem se alimenta fartamente, depois de 40 anos no deserto a pão e água.

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A lâmina que corta a minha vida

toc-breakfast01_thumb[3] Mais um momento divisor se aproxima, dois dias adiante. O que corta minha vida sempre em duas partes (e tudo isto tem a ver com a geografia) se parece com uma faca de cortar pão: tanto pela rudeza e agressividade da lâmina, quanto pela simplicidade e miudeza do que ela corta.

Dos homens e das tempestades

O vento chega à frente, como se fosse um pequeno mito anunciando uma deusa mais poderosa que se aproxima: a chuva forte, impetuosa, irresistível.

As nuvens bradam em homenagem, anunciantes, faiscando com violência para avisar que com a natureza não se brinca, e toda ela se mostra bravia: um conjunto de harmonia perfeita, ainda que destruidora.

Então, a tempestade inunda as ruas instigando falsos rios e córregos sobre o asfalto. O vento faz a dança agitada das árvores, um êxtase verde que impressiona os pássaros trêmulos e assustados em suas copas, tornando-os úmidos e sombrios.

A natureza inteira grita e força o homem a reparar em sua pequenez e fragilidade, desmentindo a certeza humana de que a teriam subjugado, tornando assim pública uma farsa cientificamente comprovada.

Quando a tempestade irrompe, os homens acuam-se dentro de cubículos acimentados, mordendo-se de inveja e medo, ao mesmo tempo em que empalidecem por toda a sua impotência estar sendo escarnecida no meio da rua.

Momentos depois, feito fúria de esposa ou de mãe, a tempestade se acalma, resmungando já com mais brandura, enquanto sai de mansinho. Então a natureza mostra um breve sorriso, como quem diz meio sem jeito

— Deixem pra lá.

Em seguida, os homens saem de seus cubículos de cimento, esquecidos de sua pequenez e impotência. Vestem-se de senhores e saem à rua, carregando em baixo do braço livros recheados de certezas científicas que não servem para quase nada. Eles olham para o céu e dizem

— Deixamos não; aguarde-nos…

O quebra-cabeças que dá valor à existência

Começo a acreditar que as coisas que duram para sempre são aquelas que experimentamos e planejamos na infância. Os projetos, as brincadeiras, as pessoas que fizeram parte de nossa vida nessa época, tudo isto, por mais que tenha havido distância entre as pessoas ou que as vontades tenham adormecido durante vários anos, tudo isto volta para continuar do ponto exato de onde havia parado. E parece-me que são situações e pessoas fundamentais para nossa história. Como se os destinos tivessem sussurrado sem nos darmos conta

— Vamos ali viver a vida e já nos encontramos

e sabemos que a marcação destes tempos é coisa sobre a qual não adianta especular.

Talvez isso esteja acontecendo apenas comigo, mas sei que existe uma espécie de retorno que ignora o peso do passado, como se partes da nossa história submergissem por anos, mas depois emergissem em alto mar respingando vida para todos os lados

— Onde foi que paramos?

e lá estão restauradas diversas conexões que já havíamos esquecido, sem darmos conta.

O destino, esse impulso que tenta nos coagir e sobre o qual podemos resistir brava ou idiotamente, poderia nos poupar dos desvios e das perdas, poderia nos mostrar o quebra-cabeças montado, antes de jogar as peças para todos os lados de nossa existência

— Anda ver se consegues encontrá-las, tens uma vida.

mas nós aceitamos o jogo

— Que escolha?

pior ainda, acreditamos que estamos a nos divertir um bocado ou que andamos por aí a fazer coisas que valem à pena ser contadas.

Pode ser que a nossa história só alcance algum valor se dermos a volta no destino e tentemos passar rapidamente a vista em nossa vida, mas à partir de um outro ângulo: a eternidade. Passar a vista é uma metáfora, pois não temos acesso a estas coisas

— Há-de chegar o dia, se cresceres o bastante, mas aí já não vai te servir de muita coisa.

No entanto, podemos pressenti-las ou solicitá-las com cuidado Àquele que dá nome à eternidade. Sim, pois é lá que o quebra-cabeças guarda uma imagem completa, definitiva. Sem essa transcendente vantagem, levaremos a nossa existência a catar peças aqui e acolá, algumas certas

— Só te servem as exatas

outras erradas

— E são quase todas.

Então eu tive o vislumbre dessas conexões e também emergi no alto mar da minha vida a perguntar

— Onde foi que paramos?

Seria o aniversário de meu pai

Meu pai ensinou-me a jogar damas quando eu era ainda bem pequeno. Ganhou todas as partidas por anos a fio. Fui crescendo; no entanto não o vencia. Fiquei tão bom no jogo de damas que ninguém da minha rua queria mais jogar comigo, pois ganhava a todos. Só ao meu pai que não.

Certa noite, depois de jantarmos, ainda na copa

— Anda cá rapaz, vamos ver se me ganhas.

Minha mãe lavava a louça na cozinha ao lado e o meu irmão com ela. O jogo estava difícil e demorou bastante. Finalmente, ganhei. Meu pai então olhou pra mim com aquele sorriso de lado, os olhos azuis brilhando e disse

— Agora sim rapaz, aprendeste a jogar.

Eu todo bobo, como se tivesse recebido o certificado de um campeonato mundial de jogo de damas. Desse dia em diante meu pai ainda ganhava a maioria das partidas, mas eu também o vencia de vez em quando.

— Mas não me ganhas todas, heim?

Meu pai tinha esse poder dos veredictos, e isso exercia uma enorme influência sobre mim.

Quando eu tinha três anos de idade sinalizava para minha mãe pegar o violão que ficava no guarda-roupa e colocá-lo no meu colo – aquele violão imenso para o meu tamanho – e ficava tocando com as cordas frouxas. Quando cresci o suficiente para segurá-lo na posição correta, o meu pai

— A primeira coisa que deves aprender rapaz, é afinar o violão.

As cordas esticaram e depois de afinadas me ensinou uma valsa. E fui aprendendo sozinho algumas baladas, música pop, enfim, segui adiante. E o meu pai

— Tens que aprender a dedilhar, isto é que é bonito. Blam blam blam não presta rapaz.

Então me dediquei aos dedilhados e depois de um tempo era o que eu sabia fazer melhor. Algumas vezes eu disfarçava e ia tocar o violão no chão, perto da mesa, assim como quem não queria nada, só para ver se conseguia o veredicto. Dava o meu melhor. Um dia ele segredou à minha mãe

— Ele toca bem.

Quando eu soube, adicionei todo contente mais um certificado à minha coleção. Esses veredictos tinham um peso imenso, tomava-os como medida de qualidade máxima. E funcionava assim com tudo. Até com a minha primeira banda, no início

— É só barulho que fazem, a bateria tum tum tum o tempo todo.

Até o dia em ele apareceu inesperadamente no terraço enquanto ensaiávamos. Quase nunca subia até lá, e por isso mesmo nós um silêncio imediato, ele um sorriso

— Anda, não precisa parar.

Todos da banda a entreolharem-se, receosos, pois sabiam bem dos veredictos, e o medo de não ser lá muito bom depois da janta, no entanto

— Teve uma música que tocaram bem.

E no dia seguinte todos da banda orgulhosos

— O teu pai gostou? Então não estamos lá muito mal, heim?

Nas coisas que eu fazia em silêncio em algum canto da casa, concentrado, vez ou outra percebia o meu pai a se aproximar: olhos azuis, sorriso de lado, mãos juntas atrás das costas, o olhar apertado… Se ele mantinha o sorriso e se distanciava sem dizer nada eu sabia que a coisa ainda não estava boa, mas já andava o veredicto a caminho.

Quando eu fiz o melhor de tudo e chegou a minha vez de ser pai, já havia cinco anos que ele tinha morrido. Ainda assim, na primeira noite de natal da minha filha, enquanto ela extasiava-se pelo chão com os presentes, eis que levanto os olhos e tenho a visão do meu pai ao pé da porta: observava a minha filha, com o mesmo olhar brilhante, feliz, mãos juntas atrás das costas. Abanei a cabeça de um lado para o outro, mas ele ainda permaneceu lá por alguns segundos. Levantou a cabeça, olhou-me sorrindo com os olhos azuis mareados e os olhos diziam-me

— Ai, que linda a menina…

Eu que só consegui dizer para a visão que já se desvanecia (o meu sorriso igual ao adeus do dele)

— É, pai, eu sei… eu sei…

e foi tanto o que eu disse com esta frase.

Hoje seria o seu aniversário, pai. Não posso mais lhe dar as meias ou os pentes que mandavam da escola, e a minha mãe não pode mais comprar as camisas de botão que usarias no próximo domingo. Mas ainda consigo sentir o cheiro do creme de barbear, da loção pós-barba, lembrar da careta daquilo a arder na pele e imaginá-lo vestindo o jaleco laranja com um touro azul bordado no bolso

(Açougue Jardim Esplanada Ltda.)

Posso até mesmo ver um pente do ano anterior guardado no bolso de trás da calça social

— Nunca usou jeans não é, pai?

As histórias que me contava ao fim da janta sobre o meu avô, o meu pai uns olhos azuis que viajavam no tempo a contar

— Só me lembro dele de costas indo embora, quando eu tinha nove anos, depois de me dar cinco tostões na porta de casa…

Histórias sobre o meu avô que morreu com vinte e oito anos, o melhor violonista do Distrito de Aveiro, premiado em Lisboa, enviado pelo exército aos Açores, e morto por uma tuberculose que estava agarrada à pedra fria sobre a qual adormeceu numa tarde sob a chuva, esgotado pelas noitadas ao violão.

Tantas páginas do livro da nossa vida e os dedos fazem sempre força para continuar, os olhos mareados, eu é que agora o sorriso de lado, as mãos juntas atrás das costas, os olhos não azuis a brilharem para cima, agradecidos, hoje 26 de novembro

— Parabéns, pai

E já que não aparecestes mais ao pé de porta alguma, deixo-te aqui uma confissão, torcendo para que no Céu mantenha-se o hábito da leitura… Escrevi um punhado de histórias e poesias, coisas simples, tentativas, mas precisava

— Olha pai, eu continuo precisando tanto dos seus veredictos…

Fazem-me falta, ora se faz…

Manual da Madrugada

Sozinho, durante a madrugada, olhando as casas e as ruas da minha janela, eu fico imaginando as pessoas dormindo. Olho para os postes, pontos de luz que deixam os caminhos em sépia, e sinto o cheiro, vejo as sombras, às vezes um gato tranqüilo que pára, olha e continua não se sabe para onde.

Não importa a intensidade, na madrugada todos os sons não passam de ruídos. Em seguida, o silêncio restabelece o seu reino. Quando parece haver muito barulho, não é culpa da madrugada: nós é que não nos distanciamos o bastante das coisas. Para senti-la, de facto, em sua profundidade, é preciso que nos afastemos de quase tudo. É preciso que sejamos mais intensamente nós mesmos.

Metal Líquido

São dias terríveis: decisões, términos, afastamentos, enfim, um longo rosário de sofrimentos internos, invisíveis. Ao mesmo tempo aspirações, realizações, recomeços, reencontros: sonhos que se iniciam porque acordei.

Dois rios em direções opostas,
que se chocam:
som, água para todos os lados,
movimento.

Não magoar pessoas queridas, muito menos fazer sofrer aos que são bons. Se fossem pessoas más não daria tempo e atenção, não teria tanto cuidado e medida. Difícil fazê-las compreender estes procedimentos silenciosos.

Afunilamento:
escoa a minha vida,
um fio de metal líquido,
lentamente.

Enfim, resta-me escrever sobre estas técnicas do destino. Essa engrenagem escondida no ar que desarruma os cabelos. Amparar os olhos com a palma da mão esticada, pois é verdade: o vento sopra e leva para onde quer.

Um sonho ao passado

Ando cá fechado em minha torre, meio isolado do mundo em um momento de transição, daqueles em que são estendidas no varal notas de solidão querida, desejada, como se a única coisa que importasse fosse ruminar a vida em silêncio.

Há roupa para lavar, mas finjo que me esqueço; há-de haver um tempo certo para cada coisa, um momento específico, exato, então passo os dias tentando alcançá-lo, ruminando, e lembrei-me do sonho que tive faz algumas semanas, um sonho bom nas formas, nos cheiros, nas lembranças. E talvez ruminar a vida seja isto.

Voltava ao tempo de minha adolescência, mas era a consciência e a minha forma de hoje que lá estavam; ali ao lado, na Rua da Conquista. Não havia mais ninguém. Tudo aconteceu como se um anjo invisível me agarrasse pelos braços, voltasse no tempo e

— É para ti esta rua.

Sentia-me bem e sabia que estava voltando ao passado, então passei a perceber o ambiente: a calçada fria de cimento onde eu pisava; o vento fresco e suave da tarde; o cheiro e o som das árvores; a extensão da rua vazia; e de súbito toda a carga daqueles anos derrubou-me em lágrimas, num sentimento nunca antes experimentado por mim em sonhos. Eu sabia que estava sonhando e sabia também que tinha voltado àquele tempo, então fiquei quieto, observando, sentindo, colhendo o máximo que podia daqueles instantes fugidios. É inútil tentar descrever em palavras tudo o que se passou em mim durante aqueles tão poucos segundos; inútil, infelizmente, pois gostaria de dividir em pormenores animados o drama, a peça, partilhar em bocados e embrulhá-los para presentear a cada um dos amigos, dizendo-lhes

— Olha, aqui está um pedaço de mim

e no entanto não consigo. Há uma ponte entre a experiência e a linguagem, uma ponte incompleta, um pedaço de cada lado e no meio um rio onde existe um monstrengo que não nos deixa atravessá-lo a nado. Resta-nos saltar de uma parte da ponte à outra, e para obtermos sucesso não podemos levar peso algum, temos que saltar leves, e nisto lá deixamos as palavras e os gestos exatos para trás.

Então isto é apenas uma tentativa, não de mostrar o que senti durante aquele sonho, mas de dar a mim mesmo em imagens e impulsos para que atravesses tu mesmo a tua própria ponte, saltando até o outro lado do rio. Onde fica esse rio? Não sei. Como chegas até aquela ponte? Tampouco. Ainda assim queria dar-te alguma coisa. De tudo o que senti é pouco, eu sei, no entanto é só o que tenho

— Toma para ti estas imagens.

José Roldão

São muitas as vozes dentro de nós

São muitas as vozes dentro de nós: daqueles que naturalmente se dispersaram com o tempo, outros que partiram com a morte e ainda aqueles que seguem por uma estrada diferente a partir de certo ponto do caminho.

No entanto, sempre é possível ouvir a voz de todos eles, de uma forma ou de outra, bem ou mal, com sonoridade fiel ou apenas similar, mas sempre reconhecível. Pode-se mesmo conversar com estas pessoas se houver imaginação para tanto. É uma espécie de mágica, certo artifício de que nossa alma faz uso para que não percamos a identidade, o rumo da nossa história individual e para que não nos sintamos tão sós enquanto a mesma não chega ao fim. Todas essas vozes são testemunhas permanentes daquilo que chamamos nossa vida.

Não me esqueço de mim mesmo, então, posso me sentir só.

Enquanto escrevia, esta era a música que tocava:

 

Veja, a rua está vazia.
Um carro passa, mas não pára.
Tudo tem que passar:
as ruas, as casas;
nós estamos de passagem,
por mais que eu permaneça
madrugadas à janela,
sem que eu perceba,
já não é a mesma paisagem,
também não pareço o mesmo,
apesar de ser; mas como?

Veja, sei quem sou.
Por isso, posso me sentir só.
Sou eu quem vê as paisagens,
as madrugadas que vão e vêm,
as ruas, as casas…
Também estou de passagem,
por mais que eu me esqueça
disto em um piscar de olhos
(é preciso sobreviver):
temos vidas e mais vidas
coladas na pele da memória.
Por isso, eu sei quem eu sou.
Sei quem sou porque me lembro
de todas estas coisas,
por mais que pisque os olhos,
infinitamente…

O acorde desta canção que é a vida

Chegar à aldeia (capital do mundo) e encontrar os amigos enevoados por causa do tempo e da distância, desanuviar as feições, forçar a rouquidão que é a rusga da pressa no falar e logo todas as vozes em uníssono saindo pela boca do Miguel

— Parece que foi ontem, pá

enquanto o outro que leva o mesmo nome que eu

— Pega o violão que já perdemos foi tempo

e que é fruto da mesma infância que a minha (apenas dos domingos na casa da tia Celeste, o que é quase o mesmo) a abrir os ouvidos ao passado, os acordes que ainda ecoavam pelas ruas de Trancoso

— Lembras-te?

Eu juntando ao eco os meus dedos cravados no violão reformado em mil maneiras, com as cordas a chiar de novas como se fosse um grito de repulsa e o Miguel percebendo que eu não tocava ainda música alguma

— Isto quase não mudou, não sejas tolo

Mas eu quase perdendo o olhar no calendário preso por um fio na parede do Café à Brasileira, dando por mim que havia de juntar as duas coisas sem atinar como,

— Ainda é a capital do mundo, estou a perceber

duas eternidades, enquanto eu suspenso no vão entre a partida e o retorno, quando o que leva o mesmo nome que eu tira de mim o violão e o encosta ao muro de pedras seculares

(uma corda vibrou com o impacto da madeira no musgo e já não houve repulsa)

— É o mesmo Largo de Trancoso, os calendários se enganam

De fato era o círculo de amigos pelos quais o tempo passou feito vento marcando as unhas, formando pequenos vincos (quase imperceptíveis) no rosto e a história de cada um a escorrer em torno do buço

— O tempo passa e aprisionamos as memórias, alivia-te, liberta-as de dentro do tampo do violão que as nossas vozes ainda lá estão todas

(mas o violão encantado com o muro)

Instantes de silêncio, eu decidindo qual das canções seria a mais certa de tocar  julgando ser de imensa responsabilidade aquela escolha e foi então que subitamente percebi qual dentre todas era a que mais cabia àquele momento, aquela que aguardava o acorde final desde há quinze anos

— Venham cá e me abracem todos de uma só vez

lembrando-me da última canção feita de silêncio triste, germinando já naquela época no Largo de Trancoso a saudade semeada com a minha partida. Enfim todos de uma vez por todas comigo, abraçados enquanto meus olhos já esquecidos do calendário permaneciam fixos no violão encostado ao muro e logo todas as vozes do mundo pela minha boca em uníssono

—  Agora somos o acorde desta canção que é a vida.

José Roldão

Do que tratam estes latidos todos?

Acho que os cães entediam-se em certas madrugadas e põem-se a latir, resmungando para outros cães. Pode ser que exista uma linguagem (de certo que há) e percebo que eles se comunicam a outros mais distantes (ou se desentendem?) em alguma disputa indecifrável para nós, humanos.

Estão lá os cães a latir.

 

São quase duas da madrugada e até os carros na rodovia passam lentamente (nas pontas dos pneus) para não atrapalhá-los.

Há certa prioridade aos latidos na madrugada (já perceberam?) e nessas horas tudo a volta parece silenciar. Só os cães ladram entre si: uns aqui nesta rua, outros mais distantes, latidos roucos, uns fracos, outros fortes, uivos, e de repente todos ao mesmo tempo como se a discussão chegasse ao auge dos impropérios (todos os cães com as patas à cabeça não acreditando no que acabaram de latir uns aos outros).

O homem que anda sempre a catar velharias nas lixeiras solta um assobio apaziguador sem grande sucesso: apenas uma leve pausa (e eles pausam ao mesmo tempo como se não houvesse espaço, a distância enorme entre todos os cães) e vou à janela

— Do que será que se trata?

O homem franze a testa levando a mão aos olhos enquanto olha para cima sem me responder

(seus óculos estão sujos que bem o vi)

e não me entende, acho que não me ouviu perguntar, e tanto faz, pois os cães desistiram do assunto (pudera, eu me intrometi a querer saber do que não me interessava) e volto cá para dentro envergonhado por meu tamanho mal jeito.

Mexi na ordem das coisas modificando a madrugada e agora eu aqui sem saber o que fazer. O homem que cata coisas deve estar lá a pensar

— Larga esse cigarro

Ele sempre que fala comigo quando estou à janela não parece ter outra frase e eu

— Que nada

sem paciência com estas coisas da mesma forma, sem novidade alguma nem improvisação que valha, eu com aquele sorriso que se traduz em

— Isto é uma chatice do caraças, meta-se com a sua vida

(com o “caraças” vai sempre a homenagem ao meu falecido avô que mo repetia em criança)

Passado este impasse imaginário (porém verossímil) deito estas palavras ao teclado  que os cães já se calaram, decerto que já foi resolvido aquele impasse.

Deu-me cá vontade de entender esses latidos todos

— Do que será que se tratava?

…o catador das lixeiras dos outros vira à esquina da rua onde vive, como se tivesse acabado de cumprir alguma missão importante…

José Roldão

Vídeo do Entrelinhas com António Lobo Antunes (Flip 2009)

Visitando o blog sobre António Lobo Antunes, encontrei este “vídeo do programa Entrelinhas, ainda sobre a estadia do escritor em Paraty, Rio de Janeiro, Brasil, durante a Flip 2009:

Intimação para testemunha ocular, prova da realidade deste momento

De uma coisa não posso esquecer: o céu noturno com poucas nuvens, lua cheia e vento morno. Das poucas, as que mais me sensibilizam são aquelas que ficam morosas em torno do disco lunar, mudam de cor e, se olhamos por algum tempo para outro ponto, distraídos, desaparecem magicamente: desfazem-se, enciumadas, quando não lhes concedemos os olhos indefinidamente.

Essas nuvens pinceladas e morosas prendem-me a vista, mas recebo em troca certa paz, uma paz que não consigo explicar, mas que, no entanto, existe inequivocadamente. Creio que poderia deitar-me em uma planície, só, e passar uma eternidade observando-as em silêncio.

A verdade é que o céu desta madrugada está excepcionalmente lindo. Seria um desaforo não escrever qualquer coisa a respeito, quase como acumular mais uma dívida para com a natureza, como se fosse possível deixar tudo isto passar impunemente, sem que mais ninguém percebesse.

Perdoe-me a intromissão, mas ousei fixar este momento em nossa memória, de agora em diante.

Grato por comparecer.

José Roldão

Trailer de O Retrato de Dorian Gray, obra de Oscar Wilde, que estará nos cinemas.

FONTE

Amália Hoje: Gaivota – por Sônia Tavares

Lendo meus feeds hoje cedo, chamou-me especial atenção o clip Gaivota, na voz de Sônia Tavares, publicado no Ciberescritas da Isabel Coutinho. 

Uma  rápida busca no YouTube para assistir outras ligações sobre o projeto Amália Hoje e aqui estou, fazendo o mesmo. Imperdível…

_______________

Amália HojeAmália Hoje é um álbum lançado a 27 de Abril de 2009, pelo projecto pop português Hoje, liderado pelo músico Nuno Gonçalves (The Gift). Apresentado no Centro Cultural de Belém a 1 de Abril de 2009[1] , no ano em que se completa uma década da morte da diva do Fado, Amália Hoje apresenta-se como um álbum com fados de Amália Rodrigues à luz da sonoridade pop actual.

O álbum, editado pela La Folie e Valentim de Carvalho Multimédia, tem como single de lançamento o tema Gaivota, com voz de Sónia Tavares.[2]

Nuno Gonçalves assina a escolha do alinhamento, os arranjos e a direcção musical do grupo, cabendo “dar voz” a este projecto a Sónia Tavares, vocalista dos The Gift, Fernando Ribeiro, dos Moonspell e a Paulo Praça (ex-Turbo Junkie e Plaza).[3]

Nuno Gonçalves descreve o Amália Hoje como “um disco épico, muito orgânico, mas pesado em termos de produção”, já que contou com gravações em Londres com a London Session Orchestra e foi misturado em Dublin e Madrid.[4]

Logo depois do seu lançamento, a 27 de Abril de 2009, Amália Hoje lidera as tabelas de vendas em Portugal por várias semanas[5], sendo disco de platina (vendas superiores a 20 mil unidades) no início de Junho.[6]

Fonte

Navegar no mar do imaginário, para aportar no real

Como a luz que penetra, sorrateiramente, através de uma fresta que nos era desconhecida até aquele exato instante, assim são as idéias que nos chegam, prenhes de ações, navegando por algum tempo no mar de nosso imaginário, para depois, finalmente, aportarem no real, satisfeitas por pisarem na terra firme do mundo.

José Roldão

Os vidros que dão para o Largo de Trancoso

Não sei qual a relação, mas esta música, Elephant Gun, do Beirut, trouxe-me isto: a minha mãe carregando-me os ouvidos

— Anda, tens tempo depois para essas coisas.

e só agora pude entender que este tens tempo depois não era para um depois tão distante. Agora já não há tanto tempo que baste. E não o há porque as pessoas perdem-se de nós, distanciam-se, só nos deixam sombras, os sons, aquelas imagens difusas que guardamos. E a minha mãe, quando eu era pequeno

— Anda, tens tempo depois para essas coisas.

e eu minúsculo, confiante, sem saber do que se tratava e fui esquecendo desta frase a minar a memória até que esta música

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Todos os anos de uma só vez a cair

Havia mais de um mês que não chorava pela casa e havia mais uns quinze dias que o choro andava pelos corredores do hospital, e quando não pelos corredores, ela com o nebulizador em uma, que ao invés de sufocar, aliviava os brônquios da filha, e a outra mão empastada aos próprios olhos, tentando conter aquela fonte das mães, que nunca seca, e a dela há mais de vinte anos. Soma-se um ano de lutas contra os dedos que procuravam perfurar o abdômen e o vício de sujar um pequeno círculo em torno da cama. A mãe que cuidava da filha como se fosse o último ser humano a existir em todo o planeta, a filha que não percebia nada, rosnava, jogava coisas, batia, mas incapacitada do entendimento por conta do mongolismo, como a própria mãe chamava. Um mês e mais quinze dias de ausência de casa e ela:

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Doses cúbicas de prazeres simples

Uma taça de vinho do porto (Terras Porto. Tawny, de Vila Nova de Gaia), um charuto (Phillies (USA) aromático: chocolate) e o vento fresco de uma noite de outono (Naturalmente bela); eis algumas das coisas que preenchem com certo prazer este início de madrugada.

Tenho a impressão que estes prazeres simples fecham-nos em um espaço pequeno, cúbico, onde pode-se ver circular idéias e sensações. Apenas os sons da rodovia, sons que persistem desde a infância (os mesmos, a repetirem-se), penetram a pouco custo neste cubículo agradável. O mais acertado nesta imagem é colocar estas coisas no alto; e faço-o: meto isto tudo numa torre média, no topo de um elevado. A altitude me agrada, silencia-me.

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O mecanismo por detrás das coisas

As coisas partem-se em pedaços; espalham-se pelo mundo. Pessoas também. Formam-se grupos, juntam-se idéias cuja densidade impõe limites físicos, e tudo isto – assim, de repente – rasga-se: um vento atravessa os limites e dissipa  aquela densidade inicial, quase tornando-a inimaginável ao torcermos os olhos para trás.

Como entender estes mecanismos? Pensei que evitar as densidades, os grupos e seus limites rígidos, proporcionaria-me certa liquidez, certo poder para trespassar personalidades. Dou-lhes uma imagem:

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A membrana da internet e os sentidos rudimentares dos seres humanos

Fazia tempo que eu não ficava em uma mesma casa com três gerações de minha família, cada uma dessas gerações representadas por um membro: mãe, avó e filho.

Está certo, não é lá algo incomum na maioria das casas que conhecemos… Porém no meu caso é algo singular, pois estou sozinho em um país e eles estão todos juntos em outro.

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Tédio Matinal

Olho aqui à minha frente um livro do Lobo Antunes; outro que me ensina a rezar na era da técnica; aquele da Ortodoxia, do G. K. Chesterton; diversos sobre São Bento; um do São João da Cruz; um sobre patrologia; Santo Agostinho; Fernando Pessoa; Jorge Luís Borges; Kafka; Camus; isto sem olhar para trás e ver os outros livros em outro lugar a observarem minha nuca. Todos mudos.

Têm também os boxes do House: extraordinariamente mansos.

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Nuvens Baixas

Ventos fortes e tempestuosos cobriram os dias. Não é possível ainda enxergar ao longe, mas cremos que não há muito o que fazer, a não ser seguir em frente.

Vamos todos com uma das mãos protegendo os olhos, e a outra agarrada aos amigos.


O alimento da alma

A alma encontrou descanso, abriu as asas de sua inteligência e as abanou um pouco, assim como quem estava com elas muito tempo presas e sente grande alívio em soltá-las. A seguir, com um olhar faminto e renovadas forças, saiu em busca de seu alimento: a Verdade.

Dizem que sua fome é infinita. E eu acredito.

Uma linha forte

Um circulador de ar canta, enchendo o ambiente com alguma canção há muito conhecida dos ventos, e que foi posta artificialmente nas hélices do aparelho pela técnica dos seres humanos.

A luminária antiga e alaranjada, quebrada pelo tempo e pelo calor, estes que ressecam o plástico e amolecem a vida, dá o tom necessário à escrita: aquela meia-luz que tantas vezes foi fixada nas fotos, deixando expostos os olhos e as folhas de tantos escritores.

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Os móveis

Os móveis conversam entre si
Assuntos que desconheço
Nos quais não tomo parte
Existe um limite instransponível
Entre os móveis e eu
Não há diálogo
Acho mesmo que os atrapalho
Eu, que passeio entre os espaços da casa
Eles, que silenciam quando se insinuam meus passos

Quase não usei a voz estes dias
(Silêncio por fora
Diálogos infindáveis por dentro)
Se me deito, levantam-se pensamentos
Se me levanto, deitam-se frases não ditas
Na folha que não sinto com os dedos
Mas que acaricio com os olhos

Há uma cola entre as pessoas
Quanto mais tempo passa
Mais firme juntam-se os corpos
Quando se separam
(as pessoas, as peles)
Dói como se as arrancasse
Descolando aos poucos
E surge uma vontade forte
De juntar os corpos de novo

Uma vontade que não se sabe
(para levar adiante ou esquecer?)
Que pode perder-se, mudar
Sabe-se lá em qual direção
Se for para longe, descola-se definitivamente
Para perto, não se sabe bem
Mas pode prender-se como nunca antes

Os móveis não entendem destas coisas
Por isso não conversamos
E assim eu vago por entre os espaços da casa
Seguido à sombra por um silêncio inquietante
(Um silêncio pesado, que se arrasta)
Que faz com que os móveis calem-se
A todo instante.

José Roldão

Editorial de António Lobo Antunes no 19º Aniversário do Público.PT

No 19º aniversário do Público.PT, quem assina o Editorial é António Lobo Antunes. Deixo abaixo alguns excertos. Quem quiser ler o Editorial na íntegra, basta aceder à página.

lobo antunes«Em criança (e em adolescente, e em adulto) não havia jornais na minha casa mas havia jornais nas casas da minha família. Na do meu avô paterno lembro-me do Debate, monárquico, impossível de ler porque estava sempre dobrado e com a cinta posta. Na do meu tio Elói, aí sim, abertos, os semanários da sua terra, o Ecos de Pombal e o Notícias de Pombal».

«E tenho um par de tais apêndices de que ignoro o mecanismo e nos quais suspeito

(não estou seguro)

que não existem parafusos nem roscas. Foram um presente dos meus pais e como quase tudo em mim continuam a ser um mistério. Devíamos vir com manual de instruções, como os electrodomésticos».

O labirinto que antecede as pontes

Existem pontes

São tantas

E o problema de existirem assim

Tantas

É que ficamos parados

(nos momentos decisivos)

A olhar para cada uma delas

Os olhos bem abertos

Às diversas possibilidades

E o problema de existirem assim

Tantas

É que ficamos perdidos

(e nos esquecemos das pontes, por instantes)

A pensar em cada uma delas

 

Depois

É preciso que alguém nos chame

De longe

(será que ouvimos?)

Pois já estaremos sozinhos

Às voltas com as idéias

(tantas!)

No labirinto que inventamos.

 

José Roldão

O vazio entre os objetos e um silêncio específico

Ou uma nova modalidade de solidão está se formando ou pode ser que uma fase extensa de minha vida tenha terminado e esteja solicitando amavelmente a passagem para outra. Algo está diferente, mesmo na maneira como os meus olhos captam o mundo ao redor.

Há um vazio entre as coisas, no espaço entre os objetos, um silêncio específico.

A impressão que tenho é a de que a imagem do ambiente que me rodeia possa vir a se desmanchar, como se a pintura do mundo fosse subitamente desbotar, esmaecer… e por debaixo fosse se revelar outra paisagem, outro quadro. Depois disto, creio eu, o vazio entre os objetos seria preenchido novamente e o silêncio específico voltaria a ser o de sempre: um silêncio comum, sem entrelinhas.


Prescindir da matemática

Bem o conheço… Sempre andava com os olhos espetando os outros, com as palavras afiadas disparadas intermitantemente em alguma direção (nem sempre algo que valha) ou passando a mão direita nos cabelos, como a jogar as idéias constantemente ao vento.

«Sei o que se passa», dizia para si mesmo logo ao acordar; e o dizia com altivez, com alguma soberba ainda crua, intacta por causa do pouco tempo vivido, mas com todo o ardor juvenil (aquela força que corre nos braços) a espremer-se pelos poros à fora numa torrente invisível.

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A pesca

– A impressão que se tem é que a maioria das pessoas são iguais, mas nos vícios e defeitos — diz António.

Pedro, instantaneamente replica:

– Mas há-de se convir que nas poucas que são diferentes, também há certa igualdade…

António passa a especificar:

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O sofrimento por amor é um sofrimento físico

loboantunes«Depois, também sofri muito de amor e o sofrimento por amor é um sofrimento físico. Daniel falava-me de um dos seus pacientes adolescentes que tinha uma depressão muito grande e o rapaz dizia-lhe: “Olhe, gostaria de ter danificado um órgão para que me doesse só esse órgão, porque com a depressão dói tudo.” É assim o sofrimento por amor, dói tudo. É horrível. Esse foi um conhecimento da dor muito, muito grande».

[Conversas de António Lobo Antunes - Maria Luisa Blanco]

A massa do homem

Observa aquele que passa na avenida
Na multidão, como se vê a princípio
Um homem só, caso percebas a realidade das coisas
Indivíduos possuem notas que os singularizam
Tais peculiaridades não ficam à superfície
Se mexeres mais a fundo – feito artífice
Descobres uma tela rabiscada na infância
É dessas coisas que os homens são feitos.

Sons habituais da madrugada

A madrugada segue com os seus sons habituais de fim de semana: os carros na rodovia fincam mais rudemente o asfalto (há uma pressa costumeira aos sábados), as pessoas nos carros e nas motos que lançam gritos esparsos e sem sentido (são sinais de vitalidade que precisam ser comunicados aos que dormem nas casas por ondem passam), chaves que giram nas portas vizinhas já em altas horas (dizem-me um “boa noite” metálico, desculpando-se, exaustas) e eu que despeço-me contrariado, pois pesa-me já o dia passado sobre as costas. (Veja só!, eu, feito Atlas…)


Aulas sobre religiões do mundo em mp3

Estava ouvindo algumas aulas de filosofia do professor Luiz Gonzaga de Carvalho, filho do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, excelentes. Aulas disponíveis para download em mp3 ou para ouvir no próprio site, com o título de Religiões do Mundo.

Não entendo como a filosofia pode ser tão descartada do cotidiano do nosso tempo e da vida das pessoas ditas “comuns”.  Só existem pessoas comuns e não encontrei ainda quem conseguisse me provar o contrário, por meio de fatos convincentes. A diferença que se faz em relação a essas designações, geralmente são propostas justo por aqueles que assim se consideram. É uma tentativa de ser incomum, tentativa essa totalmente fraudada pelo simples fato de que todos vamos morrer.

Certa vez li, em algum lugar, que o maior problema atual é que não aprendemos a pensar da maneira correta ainda quando somos crianças. Quando não sabemos pensar corretamente, tampouco podemos agir de forma coerente e lógica. É matemática. Muito menos podemos escolher com plena liberdade aquilo que desejamos intimamente.

Essa questão sobre o pensar reflete-se de maneira muito evidente no que se refere às religiões. Por isso gostei dessas aulas do professor Luiz Gonzaga de Carvalho, pois mostram sob que ponto de vista deve-se procurar entender as religiões e a forma que devemos nos propor a estudá-las, para melhor compreendê-las.

Fica aqui a indicação, caso alguém se interesse por filosofia, quero dizer, todas as pessoas comuns.

As tardes de Nuno Mendes

Nuno passava as tardes brincando quieto, em silêncio. Seus pais sempre dormiam após o almoço e ele ficava sozinho pela casa imensa. Quando somos pequenos todas as coisas parecem enormes. Ou será que vão encolhendo na medida em que crescemos? É de conhecimento público que nós é que crescemos, e na proporção em que isso acontece os espaços vão-nos escasseando. No final das contas, as casas são mesmo menores. Vemos que são assim. Pontos de vista… “Qual será a medida certa das coisas?”, perguntamo-nos.

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Gonçalo M. Tavares – Excerto do livro Senhor Brecht

“Era uma livraria que vendia um único livro. Havia 100 mil exemplares numerados do mesmo livro. Como em qualquer outra livraria os compradores demoravam-se, hesitando no número a escolher”.

(Gonçalo M. TavaresO Senhor Brecht, Editora Casa da Palavra, 1ª Edição)

O passar das coisas

Só percebemos o momento
quando o buscamos no passado.
O presente à nossa volta entorpece-nos,
turva-nos os pensamentos.
É preciso pressa; agora.
Mais tarde,
quando tudo se tornar memória,
somos ainda capazes de retocar os acontecimentos.
Pegamo-los para nós; arrancamo-los do tempo.
Os que fazem isto com arte chamam-se poetas.


Gonçalo M. Tavares – A morte do pai

O pai morreu

e ele, que era duro, endureceu mais.

Informou da existência do cadáver

como quem relembra um pormenor.

Amava o pai, mas o coração é assim

(a lei da sobrevivência):

esconde-se quando o querem matar.

 

( 1Gonçalo M. Tavares, Editora Bertrand Brasil 2005)

A sombra

Uma insignificante sombra pousou sobre a mesa cor de tabaco. Quase não pude perceber a nuance, uma gradiente, que saltava de um lado para o outro, fugindo sistematicamente da minha mão incansável. Mentira. Cansava-se ao mesmo tempo em que meu braço: descansavam juntos, em uma trégua amigável e sem receios de que qualquer um dos lados quebrasse a regra improvisada. Ficaram assim até que o dia amanheceu e a sombra partisse imperceptivelmente, deixando minha mão solitariamente iluminada.


Memórias da infância dos outros

Todos estavam reunidos no quarto-sala: aniversário. Como em toda reunião em que já não se tem muito o que dizer, logo iniciam-se as recordações de aventuras do tempo de criança. O mais curioso é que são contadas as mesmas histórias, sempre. Escangalhavam-se de rir…

Eu, sentado ao chão, prestando certa atenção dividida para ver se algum pormenor seria acrescentado nas repetições, comecei a ouvir outros relatos e considerações vindos do grupo vizinho de conversas: as mulheres. Uso aqui o termo mulheres, mas tanto estas quantos os homens eram todos muito novos, nos inícios dos vinte anos. Elas falavam de bolsas, novidades, espantos, e vez ou outra interferiam nas lembranças dos rapazes; riam-se, e depois fechavam-se em seu grupo novamente. Havia no ar a mistura das vozes altas dos dois grupos, causando-me certo entorpecimento.

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A mulher não está morta

E o silêncio rompeu-se: foi levada para a UTI. Não se sabe se de lá retorna (e por isso julgo aquelas cenas de morte previamente anunciada, sentida), mas bem pode ser, quem sabe? Minha mãe, ao telefone internacional, disse-me: «Eu estava já tão triste! Na UTI, mesmo que mal, ainda há esperança…». A vizinha contou-me: «Não morreu ainda, mas antes de ser internada já estava por demais agressiva…».

A mulher sofre de Mal de Alzheimer, uma doença degenerativa do cérebro, e que causa perda da memória episódica. É certo, já não se recordava de quase ninguém e, julgo eu, possa se dever a isto que se tenha tornado agressiva. Será que sem memória conseguiríamos ser bons para com os outros? Que outros? Não ter memória é o máximo da solidão…


A mulher está morta

Esta semana olhei pela janela de manhã e vi que uma ambulância estava parada à porta da casa do outro lado da rua. Eu sabia de antemão que a mulher estava doente e já não reconhecia aos amigos. Não houve suspense, apenas a constatação serena dos fatos.

Um assistente pegou uma maca e a levou embaixo do braço; entrou na casa. Até esse instante não havia aparecido ninguém lá de dentro, apesar da porta já estar aberta. Coloquei-me logo atrás dos vidros fumês da janela e a meias cortinas, aguardando. Alguns momentos e vejo o corpo da mulher que vem amarrado na maca. Corpo amarelo, mole, com todas as características aguardadas. Que a morte é a ausência da vida, todos sabem; mas só percebemos o alcance desta afirmativa quando nos deparamos com um morto de fato. Parece-me impossível não distinguir um ser vivo de outro já sem vida. Redundantemente: falta-lhe algo.

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O ofício da escrita e a vida

Existem diversas explicações para o que seria o ofício de escrever, mas aqui, nesta entrevista com José Saramago, no Jornal de Notícias, encontrei um trecho que me chamou a atenção, justo por conter também um pouco da relação deste ofício com a vida. A analogia é bem interessante.

Então, para si, escrever é um ofício que se confunde com a vida…

A literatura, como trabalho que é, enquanto se pode fazer, faz-se. Acabando-se a vida, acaba-se o trabalho. E, se esse trabalho tem a ver com literatura, é cortado nesse momento. No fundo, é como uma ave que é abatida em pleno voo. Vai voando e julga que vai chegar àquela árvore, onde quer pousar, mas, de repente, há um tiro de um caçador que a deita abaixo. A vida é isto.

Um silêncio de saudade relutante

Este vento frio e úmido traz-me saudades das pedras geladas e cobertas de musgos das aldeias de Portugal. Quando eu passava as mãos sobre o verde incrustado por entre as pedras, sentia como se me aplainasse a pele, como se o tempo roçasse devagar brincando com meus poros, estes que me arrepiam agora, neste exato instante, numa prece de retorno.

Lembro-me bem da neblina descolorindo as casas, e gostava de atravessá-la como quem dispensa as pontes, pois aprendeu a voar, assim, de repente, como em uma dança de sonho.

Caíram agora à minha frente, por um fio desenrolado da memória, algumas folhas de eucalipto que lembro ter posto sob o travesseiro para que me purificassem a noite do extremo silêncio da ausência urbana; porém, noite esta, que trazia as conversas de animais obscuros, cortadas ao meio pelo som de uma moto a riscar com as unhas a auto-estrada, desfazendo todo o encanto, para que o silêncio mais uma vez arrebentasse em seguida, numa espécie de ciclo inevitável.

É deste silêncio que escrevo. Um silêncio de saudade relutante, inesquecível.


Pedro e Sísifo

Pedro insistia em bater com sua cabeça na parede, ou melhor, no muro à sua frente. Pedro, que aqui quer dizer também ‘pedra’, era insistente, porém o muro resistia. E ficava ali: batendo e se machucando, ferindo o rosto e reabrindo as feridas de outros dias. Algumas vezes identificava-se com Sísifo, mas o tempo passava…

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Noite clássica

Uma conhecida sensação tediosa invadiu este cômodo. De repente, eis que falta eletricidade. Olho da janela, que recosta do meu lado esquerdo, e vejo tudo escuro até onde a vista alcança. Em menos de um minuto, retorna a eletricidade (onde andavas? onde fostes?). Sim, retorna aqui em casa, pois, lá fora (a janela informa-me, cutuca-me), tudo permanece negro: uma noite clássica.

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Camus – Sobre os mortos semeados na história

«Flutuavam números na sua memória e dizia a si próprio que umas três dezenas de pestes que a história conheceu tinham feito perto de cem milhões de mortos. Mas que são cem milhões de mortos? Quando se faz a guerra, já é muito saber o que é um morto. E já que um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados através da história esfumaçam-se na imaginação».

[ Albert Camus - A Peste ]

Platero e Eu – O menino e a fonte

«Na aridez abrasada de sol do grande lago poeirento que, por mais leve que se pise, cobre a gente, até os olhos, de branca poeira peneirada, o menino e a fonte formam um grupo risonho e esplêndido, cada qual com a sua alma. Embora ali não haja uma única árvore, o coração, em chegando, se enche de uma palavra que os olhos fixam, gravada no céu azul da Prússia, com grandes letras de luz: OÁSIS.

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Os livros e a viagem

Estava agora, neste instante (e não escrevo no passado, mas sim neste eterno presente), observando os livros em minha frente. Vertiginosamente atacaram-me pensamentos não tão absurdos quanto os que me acometem em sonhos – e o leitor deve acreditar que meus sonhos são mundos completos, inclusivos, e podem tanto alegrar quanto me agarrar em seus labirintos.

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Banho, chuva e café na janela

Fim de tarde. A chave gira na fechadura. Chega a casa após mais um dia de trabalho e não pensa em outra coisa a não ser o banho. Depois: um café na janela. Sempre preferiu os dias chuvosos, aquela chuvinha fina que não passa.

O banho. Sente a água morna cair sobre a cabeça e faz uma rápida e simples analogia com a chuva lá fora. Nenhuma imagem ou quadro mental aprimorado, apenas um pensamento passageiro, sem sentimentos – uma ponte.

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Albert Camus – Sobre o exílio

«Sim, era realmente o sentimento do exílio esse vazio que trazíamos constantemente em nós, essa emoção precisa, o desejo irracional de voltar atrás ou pelo contrário, de acelerar a marcha do tempo, essas flechas ardentes da memória»

«Experimentava assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve pra nada»

[ Albert Camus - A Peste. Págs. 66, 67 e 68 - 12ª Edição 1999, Editora Record ]

Juan Ramón Jiménez – A viagem definitiva

Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.

Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto de meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico…
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido…
E os pássaros ficarão cantando.

[ Juan Ramón Jiménez ]

Matematicamente falando…

Sentimo-nos exaustos. São muitos os dias se contarmos desde o início de cada um. Junte-se os dois e a matemática do tempo particular exaspera-se. Por isso equacionamos as duas vidas. Não se sabe mais ao certo para que lado fica a saída do labirinto, pois rompeu-se o Fio de Ariadne.

Com o pedaço que nos sobrou nas mãos, pensamos seriamente enlaçar os dedos. Porém o Minotauro ainda nos assusta. Estamos a ver se ele existe, de fato.


Dois gatos

Fui dar aulas. No caminho de ida, perto de casa ainda, olhei para a rua e vi dois gatinhos comendo os restos de algum animal que havia sido atropelado. Naquela rua passam muitos veículos, pois é passagem dos carros que saem da Rod. Presid. Dutra e vão pegar o viaduto, afim de fazer o retorno. Estranhei que os gatinhos estivessem em meio a rua, tranquilamente comendo aqueles restos, e ainda estivessem vivos. Parei e fiquei observando. Em minutos vem um carro e desvia por pouco. Os gatos nem esboçaram qualquer movimento, ficaram ali, como se nada existisse à volta.

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O silêncio do mundo e o nosso barulho

Estava pesquisando sobre Thomas Merton e me deparei com um blog muito interessante, o «Reflexões de Thomas Merton», do qual tomei a liberdade de copiar este excerto:

O silêncio do mundo e o nosso barulho

“Os que amam o ruído que fazem são impacientes com o resto. Desafiam constantemente o silêncio das florestas, das montanhas e do mar. Passeiam com suas máquinas pela floresta silenciosa, em todas as direções, cheios de medo de que um mundo calmo os acuse de vazios. A pressa da sua velocidade, a pretexto de um fim, simula ignorar a tranqüilidade da natureza. O avião ruidoso, por sua trajetória, por seu estrondo, por sua força aparente, por um momento parece negar a realidade das nuvens e do céu. Vai-se o avião, fica o silêncio do céu. Afasta-se ele, a tranqüilidade das nuvens permanece. O silêncio do mundo é que é real. O nosso barulho, os nossos negócios, os nosso planos e todas as nossas fátuas explicações sobre o nosso barulho, negócios e planos, tudo isso é ilusão.”

No Man is an Island, de Thomas Merton
(Harcourt Brace Jovanovich, Publishers, New York), 1955. p. 257

No Brasil: Homem algum é uma ilha, (Verus Editora, Campinas), 2003. p. 216

Planícies

Planícies. Cúmulo do estar sozinho. Existe maior sentimento de solidão do que estar em meio à planície?

Todos os lados são paredes móveis de vento; é onde o céu adquire seu maior peso. Ao mesmo tempo, não existe céu mais belo, nem sol tão visível, nem lua mais presente, nem nuvens mais deslumbrantes.

Pode-se imaginar um escritor sozinho, em uma planície, sentado em frente ao seu computador escrevendo. Acontece em todo lugar que ele escreve. Todo escritor deve carregar sua planície particular. E lá que ele escreve: na planície. Se observá-lo de longe, pelo que escreve, sem perturbá-lo, certamente ele vai deixar escapar um sorriso de lado nos lábios. Assim…


Aquele carro que passa

Um carro atravessa a rodovia e
dispara feito flecha no alvo da noite…


Polonaise, de Chopin

Ouvindo Chopin. É possível imaginar uma biblioteca escura, uma única janela ao fundo, um homem sentado de frente para essa mesma janela, e nós a olharmos, observando-o ao fundo, vendo apenas suas costas. Não parece bem um homem, mas apenas a sombra de um homem que pensa e sente além, que se deixa levar pela obra do exímio pianista. Certamente o piano de Chopin preenche todo o ambiente, com suficiente e eficaz volume.

E eu fico aqui, observando essa cena, também me deixando levar, ouvindo Polonaise, de Chopin.


A paciente

O médico toca com os dedos a barriga da mulher grávida. Seus olhos cruzam com os da paciente por alguns instantes. Ela parece estar bem de saúde; e também o bebê. A mulher segura a mão do médico, separa-lhe os dedos e entrelaça com os seus: «Doutor, uma vida quer rebentar de dentro de mim».


Inversão de papéis

Deep Freeze

Dor de cabeça. Uma dor que foge, correndo em círculos dentro do claustrofóbico espaço craniano. Tenho dó dessa dor. Coitada! Presa, batendo desesperada, procurando uma saída! Decido não interferir. Isso quer dizer que sou pior que a dor de cabeça: vou deixá-la lá dentro, prisioneira, sofrendo. É bom inverter os papéis de vez em quando.

José Roldão

O mapa

Saber onde está o tesouro não basta!
É preciso encontrar o caminho.
Tem que pisar no caminho.
Tem que ter os pés descalços,
Pois é preciso endurecer a pele!
É bom ter também os punhos fechados,
Pois é preciso também ser forte!
Ajuda muito ter os olhos bem abertos,
Pois o tempo insiste em fechá-los.
Um dia seremos todos vencidos,
Cansaremos as pálpebras
E um último bocejo se encarregará do resto.
Saber onde está o tesouro não basta.
É do mapa que mais precisamos.
_

José Roldão

Dostoiévski – Oradores patéticos

dostoievski1 “Ficou tudo em silêncio às primeiras palavras do célebre advogado. A sala inteira tinha os olhos fixos nele. Começou com uma simplicidade persuasiva, mas sem a menor jactância. Nenhuma pretensão à eloqüência e ao patético. Era um homem que conversava na intimidade de um círculo de amigos. Tinha uma bela voz, forte, agradável, em que ressoava algo de sincero, de simples. Mas cada qual sentiu logo que o orador podia elevar-se ao verdadeiro patético, e tocar os corações com uma força desconhecida“‘.

[ in Fiódor M. Dostoiévski - Obra Completa, Volume IV, pág. 1.061. Os Irmãos Karamázovi – IV parte – L. XII. Editora Nova Aguilar S.A., 1995. ]

KAFKA – O laço diante do rosto

“É como quando alguém será enforcado. Se ele realmente é enforcado, morre e acaba tudo. Mas se tem de presenciar todos os preparativos para o enforcamento e só fica sabendo do indulto quando o laço pende diante de seu rosto, nesse caso ele talvez venha a sofrer a vida inteira por causa disso”.

[ Kafka – Carta ao Pai ]

Gonçalo M. Tavares – Uma viagem a pé

Capa Sr Valéry

O senhor Valéry andava sempre a pé. Muito rápido, com passinhos pequeninos. (Neste particular era parecido com o sr. Sommer, um vizinho).

Um dia o senhor Valéry precisou de se deslocar a um ponto afastado da cidade.

A pé demoraria dez horas. De comboio apenas vinte minutos.

Depois de muito pensar o senhor Valéry decidiu ir a pé. O senhor Valéry explicava:

- Quem me garante que o sítio onde chego após dez horas é o mesmo do que aquele que chego em vinte minutos?

E com mais convicção dizia:

- É evidente que não é o mesmo sítio.

E o senhor Valéry desenhou, então, duas setas de comprimento muito diferente

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E exclamou:

- Só um louco diria que o ponto final das duas setas é o mesmo.

Ganhando balanço o senhor Valéry continuou:

- E mesmo se eu for de comboio e esperar parado, no destino, 9 horas e 40 minutos, esse meu destino não será o mesmo daquele a que eu chego em dez horas de caminho a pé; já que eu estive lá, nesse sítio, mesmo que parado, 9 horas e 40 minutos a modificá-lo.

E começou, então, a andar, pois a decisão estava tomada.

Ao fim de vinte minutos de caminhada o senhor Valéry olhou para o relógio e pensou, de modo algo confuso:

- Se eu me encontrasse já no meu destino, este momento exacto seria o sítio onde eu chegaria.

Olhou à sua volta e disse:

- Porém, este não é ainda o meu destino.

Continuou, assim, a andar.

Mais tarde, contente, exclamou, ainda para si próprio:

- Ainda não cheguei, mas eu vou para outro sítio.

E como faltavam ainda cerca de 9 horas para chegar onde queria, o senhor Valéry continuou a andar, contente e feliz com os seus raciocínios, um pé a seguir ao outro, sempre ao mesmo ritmo, a andar em direcção ao seu destino.

- A mim ninguém me engana – murmurava o senhor Valéry, já a suar muito.

(O Senhor Valéry – Gonçalo M. Tavares)

Fernando Pessoa – Núvens

“Nuvens… Hoje tenho consciência do céu, pois há dias em que não o olho mas sinto, vivendo na cidade e não na natureza que a inclui. Nuvens… São elas hoje a principal realidade, e preocupam-me como se o velar do céu fosse um dos grandes perigos de meu destino. Nuvens… Passam da barra para o Castelo, de Ocidente para Oriente, num tumulto disperso e despido, branco às vezes, se vão esfarrapadas na vanguarda de não sei o quê; meio-negro outras, se, mais lentas, tardam em ser varridas pelo vento audível; negras de um branco sujo, se, como se quisessem ficar, enegrecem mais da vinda que da sombra o que as ruas abrem de falso espaço entre as linhas fechadoras da casaria”.

(Fernando Pessoa – Livro do Desassossego – por Bernardo Soares)

Deserto

Tenho um choro retido na garganta
Desses que ficam gritando encarcerados
Não cedo as chaves nem descanso os olhos
Que vigiam atentos qualquer tentativa de fuga
Tenho um nó apertado na lembrança
Desses que, se puxam, ficam mais apertados
Não cedo atenção nem dilato os poros
Que engelham a pele sentindo dor alguma
Sinto como se o tempo escoasse
Ralo abaixo de minha vida aberto
Secando toda reserva que em mim exista
Melhor mesmo que seque ‘inda que resista
Assim do cárcere e do laço me liberto
E não haveria dor nem fuga que me alcançasse
_

José Roldão

Dilúvio

Turba-me a vista aquela paisagem
Há tanto guardada na arca da memória
Não foi bastante aquele dilúvio
Pois, de par e par, todos os meus instintos
Fechados comigo sofrendo a tempestade
Debateram-se nas histórias, sem escrúpulos
Algumas – invenções à flor-da-pele
Outras – memórias, realidades; quase nada
 
Por quarenta dias, arderam-me absurdos
Por quarenta noites, fingi que sonhava alucinado
Com quem aperta os olhos em apuros
Tendo por dentro o coração convulsionado
_
José Roldão 

Fernando Namora – Retalhos

“Há dias em que a melancolia chove dentro de nós como num pátio interior, atapetado de jornais velhos. Não se ouve, não se sente – mas rebrilha na sujidade densa. Eu estava num desses dias quando afastei a cortina e olhei pela janela a tarde que se ofuscara de repente, com pressa de se evadir da atmosfera enfastiada e, sobretudo, de um cenário sem alegria…”. (…)

“Mas em fechando a cortina tudo isso desaparecia: eis-me de novo isolado no gabinete fofo, de paredes que, a partir de certo momento, me davam a sensação irrespirável de uma espessura acolchoada onde tudo ficava retido: a fadiga, o silêncio…

(…)

[Fernando Namora - Retalhos da Vida de Um Médico - Segunda Série - excertos, pág 305; 14ª Edição. Livraria Bertrand]

Fernando Pessoa – Ser poeta

“Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho”

-

[ Fernando Pessoa - O Guardador de Rebanhos ]

Fernando Pessoa – Quando ela passa

Quando eu me sento à janela

P’los vidros qu’a neve embaça

Vejo a doce imagem d’elia

Quando passa… passa…. passa…

Lançou-me a mágoa seu véu:

Menos um ser n’este mundo

E mais um anjo no céu.

Quando eu me sento à janela

P’los vidros qu’a neve embaça

Julgo ver imagem dela

Que já não passa… não passa. (1)

5.5.1902

(1) – João Gaspar Simões aventa que esta poesia escrita por Fernando Pessoa, aos 13 anos, em Durban ou nos Açores por ocasião da viagem então feita à terceira, terá sido inspirada pela morte recente de sua meia-irmã Madalena. Vida e Obra de Fernando Pessoa, ed. Livraria Bertrand, Lisboa, 2ª edição. Sem data, p. 74

Vindo pra casa

Estava eu andando sob o céu noturno, vindo para esta casa, quando por entre nuvens [ou névoas, não sei ao certo; mas quem saberá?], vislumbrei uma forma luminosa, pronta para atravessar o umbral que nos separa do celeste. Não era circular [poucas são as formas circulares perfeitas e dignas deste nome] nem tampouco angulosa. Confesso: cismei de averiguar durante alguns instantes aquele objeto semi-identificado em minha memória. Não parei meus passos, mas segui adiante [meus olhos retesados; uma sobrancelha levantada] enquanto conversavam no aqui e ali do círculo de pessoas que me acompanhavam [sim... são muitos os círculos, mesmo que imperfeitos].O umbral celeste [aquelas nuvens que pairavam – ou será que era névoa?] estava desdenhando de minha imaginação, impedindo que a história continuasse, tanto sob o céu noturno quanto sobre os passos ensimesmados. Brinquei dentro do meu círculo e alarguei seu espaço, fazendo com que todos ajudassem aquela forma luminosa a atravessar tão dolorosa abertura. Parecia mesmo que se espremia intensamente [talvez por isso, por estar se espremendo, não fosse perfeitamente circular] e que a qualquer momento fosse cair sobre nós. Muitos sorrisos acudiram desmedidamente, mas não nos esquecemos de soprar com força para cima, fazendo pressão oposta, mantendo tudo em seu devido lugar: nem lá nem aqui, mas sim onde era pra estar.

Fernando Pessoa – Pré-texto

“E afinal o que eu quero é fé e calma

E não ter essas sensações confusas

Deus que acabe com isto! Abra as eclusas

E basta de comédias na minh’alma.”

[Fernando Pessoa - Opiário]

Kafka – Fábula curta

Franz Kafka
Tradução de Torrieri Guimarães

“Ai de mim!”, disse o rato, “o mundo vai ficando dia a dia mais estreito”.

“Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão rapidamente um ao encontro do outro que eis-me já no fim do percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair”.

“Mas o que tens a fazer é mudar de direção”, disse o gato, devorando-o.

Radiohead – Fake Plastic Trees (Tradução)

FAKE PLASTIC TREES
ÁRVORES ARTIFICIAIS DE PLÁSTICO

(Radiohead)

Seu regador verde de plástico
para sua imitação chinesa de planta feita de borracha
na terra artificial de plástico
que ela comprou de um homem de borracha
em uma cidade cheia de planos de borracha
para se livrar de si mesma
Isto a desgasta
Ela mora com um homem quebrado
um homem de polistireno rachado que só se esfarela e
se queima
Ele costumava fazer cirurgia para garotas nos anos
oitenta
mas a gravidade sempre vence
(E) Isto o desgasta
Desgasta
Ela parece verdadeira
Ela tem sabor verdadeiro
Meu amor artificial de plástico
Mas não posso evitar o sentimento
Eu poderia explodir através do teto se eu simplesmente
me virar e correr
E Isto me desgasta
Se eu pudesse ser quem você queria
o tempo todo

Estrada

Tudo na estrada pode ser posto com arte. Muda-se o matiz, o som, o ar – balança-se a cabeça rapidamente – e tudo encerra a imagem, aprisionada pela câmera digital no tempo. Sim, parece-me aceitável. É ficção.


Sentidos

Com tantos dias em mãos, andei cercando os sentidos que me escapuliam, escorregadios. Um desses sentidos caiu em cima do teclado do computador, esvaindo-se pelos espaços que existem entre as teclas. Se bem reparei, foi entre a tecla do espaço – aquela maior, horizontal – e as que a seguem logo acima: menores em tamanho, maiores em número.

Agora não sei daquele sentido, perdi-o – antes de perdê-lo já não sabia. Pior: agora me peguei com novos símbolos e sentidos por causa do lugar onde foi parar: espaço, extensão, número, quantidade, qualidade, uso… Para agravar ainda mais a situação, acabei por gerar este texto… Estou receoso de multiplicar sentidos gerados, de trocar o primeiro por muitos outros que possam derivar daquele e perder eu mesmo todo o sentido.

Isso sim seria terrível!

PLACEBO

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O dia hoje estava diferente. Acordei sentindo que outra pessoa sentava ao meu lado na cama. A cama cedeu com o peso de mais um outro corpo. Pensei que era ela. Senti alguém se esticando por cima de mim e apoiando uma das mãos na frente de minha barriga, fazendo um arco com o braço. Eu estava deitado de costas para a porta; deitado sobre meu lado esquerdo. Pensei que era ela, mas não fazia sentido, pois lembrei que tinha deixado a porta de entrada de minha casa com a tranca de segurança por dentro, pois ela não chegaria cedo. Mesmo com as chaves ela não teria conseguido entrar, sem que me chamasse.

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Matemática fiel

Quatro noites escrevendo sobre dois mil anos, para combater cinco séculos. Nesta matemática dos raciocínios, onde a fé ilumina cuidadosamente a razão, vamos revelando questões e fornecendo gabaritos. Contra a invencionisse: apresento a realidade que persiste, fundada sobre a Pedra. Nesta, somando infinitamente, o resultado sempre será igual a UM; nas outras, os resultados (que podem variar ao infinito) sempre parecerão dízimas periódicas.


Bilhete de viagem

“Um homem, entretanto, tinha um bilhete de viagem para a própria alma,
mas desconhecia o local de embarque”

[ Gonçalo M. Tavares ]

O retorno do herói

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Ao contrário do que planejamos
Ao contrário do que estava no roteiro
Não haverá um retorno ao lar
O herói não será erguido pela multidão extasiada
E nem será imortalizado em camisetas de adolescentes
O fim passará desapercebido
Os olhos verão apenas a poeira erguida
E quando ela baixar
Haverá apenas a estrada
Será simples assim
No final de um dia como hoje
O suposto fim
Na aparente estrada
Que vai para lugar nenhum

[ Jean Darilho ]

Em círculos

dede Sempre agia assim. Corria de um lado para o outro, como se dessa forma pudesse encontrar, aos círculos, a resposta pairando pelo cômodo e, como se a pudesse engolir e digerir, ao invés de ruminá-la; ao invés de saboreá-la e chegar ao cerne da questão. Intentava a solução de todos os problemas em vista. Tolo! Era como o chamavam, na maioria das vezes. Para suas dúvidas nunca havia encontrado soluções absolutas. Buscava-as, como quem busca uma nova forma de prazer, mas sabia de antemão que era de sua natureza não se saciar nunca. Por falta de método ou falta mesmo do que fazer, passava suas angústia à limpo, diariamente, nesse vai-e-vem tresloucado, com olhos esgazeados, olhando através do ar, como se fosse possível tragá-lo e acumulá-lo em suas entranhas. Ficava assim, sempre assim. Depois, quando o cansaço vencia, por fim, derrubava-se no chão e adormecia. Tolo! E nem dava por si nesse estado. Apenas adormecia. E esquecia-se de si mesmo todos os dias.


Fernando Pessoa – Dizem que finjo muito

pessoa

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê!

Juan Ramón Jiménez – O poço

500458484_5a721349eb “(A noite desce, e a lua brilha lá no fundo, engrinaldada de estrelas andarengas. Silêncio! Pelos caminhos, a vida, a vida se dilui na distância. Do poço escapa a alma das profundezas. Por ele se vê como que o outro lado do poente. E parece que de seu bojo vai sair o gigante da noite, senhor de todos os enigmas do mundo. Ó labirinto fantástico e silente, umbroso e perfumado parque, salão mágico e encantado!)

- Platero, se um dia eu me jogar neste poço, não será para matar-me, podes estar certo, mas sim para apanhar mais depressa as estrelas”.

Juan Ramón Jiménez – Trecho de “O Poço”, da obra “Platero e Eu”.

Um menino chamado Eu

Era uma vez um menino que se chamava Eu. Sim, é um nome absurdo, mas era esse o seu nome. Crescera no seio de uma família numerosa que se reunia aos domingos sem, no entanto, que os seus nomes fossem esquecidos durante os outros dias da semana. Existia um vínculo invisível que fazia com que estivessem presentes diariamente nas conversas do almoço, nos planos em vista, nos comentários sobre o jogo de sueca do domingo anterior, enfim, era uma verdadeira família, dessas que quase não existem mais nos dias de hoje. Naquela época o menino eu não estava ciente do mundo fora desse círculo familiar, aliás, círculo que viera de outro país, com outra cultura e valores, e que se preservava fechado no mais que pudesse.

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