Os vidros que dão para o Largo de Trancoso

Não sei qual a relação, mas esta música, Elephant Gun, do Beirut, trouxe-me isto: a minha mãe carregando-me os ouvidos

— Anda, tens tempo depois para essas coisas.

e só agora pude entender que este tens tempo depois não era para um depois tão distante. Agora já não há tanto tempo que baste. E não o há porque as pessoas perdem-se de nós, distanciam-se, só nos deixam sombras, os sons, aquelas imagens difusas que guardamos. E a minha mãe, quando eu era pequeno

— Anda, tens tempo depois para essas coisas.

e eu minúsculo, confiante, sem saber do que se tratava e fui esquecendo desta frase a minar a memória até que esta música

…Se eu fosse jovem,

fugiria desta cidade…

trouxesse todos os sonhos, todas as imagens, todos os momentos pequenos que duram não sei até quando, mas que devem ter alguma duração certa, precisa, que deve nos chegar quando a morte vier congelar tudo, dando a nossa forma de uma vez por todas.

…Como eu,

nós sonhamos até morrer…

E a minha mãe que hoje já não diz aquela frase, já não me manda fazer qualquer coisa para depois, mas que acelera todas as noites à cama o tempo para que eu entre batendo a porta deixando lá fora a distância.

…Nós sonhamos

esta noite…

Eu que sonhava tanto, que demorei décadas para acordar e entender aquela frase, e me deitava longe na noite e escrevia em papel grosso e empedrado umas palavras que eu tinha por leves e macias, mas que pareciam assim por contrastar tanto com a superfície onde eram marcadas.

— Anda, tens tempo depois para essas coisas.

E para isto até que eu tinha, o que esperava por mim era a realidade e confundia-me por pensar que a poesia pairava no ar, abstrata, sutil demais, enquanto o mundo raspava os dias no meu rosto arranhando-me a testa seca, os olhos de vidro e pervertendo-me os raciocínios. A poesia podia ter esperado, as letras de canções podiam ter ficado em silêncio até muitos acordes depois, o que não podia ter esperado era o tilintar dos metais carregados de carnes no açougue a me gelar as mãos, tanto não podia que o tilintar dos ganchos nunca mais hão de atravessar as paredes e encontrar os meus ouvidos debaixo do ar-condicionado, nem mais existem os ganchos nem o açougue e pouco ainda há das carnes que já não são as mesmas, são figuras, são cópias, imitações daquelas de antes.

…Que comecem as temporadas

Derrube o grande rei…

E bem que podia ser agora, pois não queria perder a viagem e ter que esperar mais outras três estações, mais ciclos, mais redemoinhos, tempestades, surpresas inesquecíveis e dias que se adiam indefinidamente levando sempre adiante as datas que já nem marco mais no calendário, um rabisco em um dia qualquer e a minha mãe

— Bate a porta porque a distância não te quer deixar ficar.

E eu para minha mãe

— Anda, tens tempo depois para essas coisas

conta-me agora como anda o entroncamento, se ainda há guardas que me metem medo por eu andar a dirigir sem carteira de habilitação, se os cafés ainda estão enfumaçados e se ainda há uma cadeira vazia perto dos vidros que dão para o Largo de Trancoso.

— Bate a porta porque a distância não te quer deixar ficar.

E eu bem que a queria bater, descolar as mãos da maçaneta, virar a chave e jogá-la longe com os olhos fechados, mas sempre que os abro não é o Largo, não o entroncamento, não os guardas, mas um pensamento que esta música me trouxe, uma frase, outra, e esta agora que não desgruda mais da mão a umedecer os dedos

…Como eu,

nós sonhamos até morrer…

por isso eu enfio a mão no bolso e a guardo, pois ainda não chegou o tempo em que devo tomar a forma de uma vez por todas, de congelar a imagem que terá o meu rosto quando o tempo deixar de correr, nem assim, ainda não, pois estou em luta incessante contra a distância, seguindo passo depois de passo a desfazer cada pegada que era para ter deixado para atrás.