Seria o aniversário de meu pai
Meu pai ensinou-me a jogar damas quando eu era ainda bem pequeno. Ganhou todas as partidas por anos a fio. Fui crescendo; no entanto não o vencia. Fiquei tão bom no jogo de damas que ninguém da minha rua queria mais jogar comigo, pois ganhava a todos. Só ao meu pai que não.
Certa noite, depois de jantarmos, ainda na copa
— Anda cá rapaz, vamos ver se me ganhas.
Minha mãe lavava a louça na cozinha ao lado e o meu irmão com ela. O jogo estava difícil e demorou bastante. Finalmente, ganhei. Meu pai então olhou pra mim com aquele sorriso de lado, os olhos azuis brilhando e disse
— Agora sim rapaz, aprendeste a jogar.
Eu todo bobo, como se tivesse recebido o certificado de um campeonato mundial de jogo de damas. Desse dia em diante meu pai ainda ganhava a maioria das partidas, mas eu também o vencia de vez em quando.
— Mas não me ganhas todas, heim?
Meu pai tinha esse poder dos veredictos, e isso exercia uma enorme influência sobre mim.
Quando eu tinha três anos de idade sinalizava para minha mãe pegar o violão que ficava no guarda-roupa e colocá-lo no meu colo – aquele violão imenso para o meu tamanho – e ficava tocando com as cordas frouxas. Quando cresci o suficiente para segurá-lo na posição correta, o meu pai
— A primeira coisa que deves aprender rapaz, é afinar o violão.
As cordas esticaram e depois de afinadas me ensinou uma valsa. E fui aprendendo sozinho algumas baladas, música pop, enfim, segui adiante. E o meu pai
— Tens que aprender a dedilhar, isto é que é bonito. Blam blam blam não presta rapaz.
Então me dediquei aos dedilhados e depois de um tempo era o que eu sabia fazer melhor. Algumas vezes eu disfarçava e ia tocar o violão no chão, perto da mesa, assim como quem não queria nada, só para ver se conseguia o veredicto. Dava o meu melhor. Um dia ele segredou à minha mãe
— Ele toca bem.
Quando eu soube, adicionei todo contente mais um certificado à minha coleção. Esses veredictos tinham um peso imenso, tomava-os como medida de qualidade máxima. E funcionava assim com tudo. Até com a minha primeira banda, no início
— É só barulho que fazem, a bateria tum tum tum o tempo todo.
Até o dia em ele apareceu inesperadamente no terraço enquanto ensaiávamos. Quase nunca subia até lá, e por isso mesmo nós um silêncio imediato, ele um sorriso
— Anda, não precisa parar.
Todos da banda a entreolharem-se, receosos, pois sabiam bem dos veredictos, e o medo de não ser lá muito bom depois da janta, no entanto
— Teve uma música que tocaram bem.
E no dia seguinte todos da banda orgulhosos
— O teu pai gostou? Então não estamos lá muito mal, heim?
Nas coisas que eu fazia em silêncio em algum canto da casa, concentrado, vez ou outra percebia o meu pai a se aproximar: olhos azuis, sorriso de lado, mãos juntas atrás das costas, o olhar apertado… Se ele mantinha o sorriso e se distanciava sem dizer nada eu sabia que a coisa ainda não estava boa, mas já andava o veredicto a caminho.
Quando eu fiz o melhor de tudo e chegou a minha vez de ser pai, já havia cinco anos que ele tinha morrido. Ainda assim, na primeira noite de natal da minha filha, enquanto ela extasiava-se pelo chão com os presentes, eis que levanto os olhos e tenho a visão do meu pai ao pé da porta: observava a minha filha, com o mesmo olhar brilhante, feliz, mãos juntas atrás das costas. Abanei a cabeça de um lado para o outro, mas ele ainda permaneceu lá por alguns segundos. Levantou a cabeça, olhou-me sorrindo com os olhos azuis mareados e os olhos diziam-me
— Ai, que linda a menina…
Eu que só consegui dizer para a visão que já se desvanecia (o meu sorriso igual ao adeus do dele)
— É, pai, eu sei… eu sei…
e foi tanto o que eu disse com esta frase.
Hoje seria o seu aniversário, pai. Não posso mais lhe dar as meias ou os pentes que mandavam da escola, e a minha mãe não pode mais comprar as camisas de botão que usarias no próximo domingo. Mas ainda consigo sentir o cheiro do creme de barbear, da loção pós-barba, lembrar da careta daquilo a arder na pele e imaginá-lo vestindo o jaleco laranja com um touro azul bordado no bolso
(Açougue Jardim Esplanada Ltda.)
Posso até mesmo ver um pente do ano anterior guardado no bolso de trás da calça social
— Nunca usou jeans não é, pai?
As histórias que me contava ao fim da janta sobre o meu avô, o meu pai uns olhos azuis que viajavam no tempo a contar
— Só me lembro dele de costas indo embora, quando eu tinha nove anos, depois de me dar cinco tostões na porta de casa…
Histórias sobre o meu avô que morreu com vinte e oito anos, o melhor violonista do Distrito de Aveiro, premiado em Lisboa, enviado pelo exército aos Açores, e morto por uma tuberculose que estava agarrada à pedra fria sobre a qual adormeceu numa tarde sob a chuva, esgotado pelas noitadas ao violão.
Tantas páginas do livro da nossa vida e os dedos fazem sempre força para continuar, os olhos mareados, eu é que agora o sorriso de lado, as mãos juntas atrás das costas, os olhos não azuis a brilharem para cima, agradecidos, hoje 26 de novembro
— Parabéns, pai
E já que não aparecestes mais ao pé de porta alguma, deixo-te aqui uma confissão, torcendo para que no Céu mantenha-se o hábito da leitura… Escrevi um punhado de histórias e poesias, coisas simples, tentativas, mas precisava
— Olha pai, eu continuo precisando tanto dos seus veredictos…
Fazem-me falta, ora se faz…


novembro 26th, 2009 at 2:12 PM
[...] Hoje seria o aniversário do pai do José Roldão e ganhamos de presente um registro dos olhos não azuis do amigo. Para ler no Cidade Solitária. [...]
novembro 26th, 2009 at 9:53 PM
Primo,
O que queres, fazernos chorar? Lindo o que escreveste, seu pai de onde ele está, diante do Todo poderoso dá os veredictos de sua vida e ainda intercede por ti. Tu recebeste esse dom maravilhoso, com certeza é um veredicto nosso, não chegará nunca perto dos que o seu querido pai e tio meu lhe dava, mas é muito sincero. Creio que na solidão de seu quarto essas lembranças podem deixar seus olhos marejados, mas saiba que o que passas nessa terra não será em vão, pois a tempestade pode durar uma noite mas a bonança vem pela manhã. Peço que reze pela minha vida e de minha família. A propósito, hoje seu primo completa 4 anos de casados. Graças a Deus. Um fraterno abraço e que Deus o abençoe.
novembro 27th, 2009 at 9:26 AM
Que lindo… que ricas memórias… lindo!
novembro 29th, 2009 at 4:50 PM
Pô Zé!Ae é sacanagem!
Acabei de deixar meu filho(8 anos)de castigo pelas tantas traquinagens que ele vem aprontando…E ae….Leio seu texto,choro e amoleço o coração…Tô quase tirando ele do castigo.Rsrs
Lindo texto!
Estranho a sensação de eu conseguir visualizar a imagem do seu pai apenas lendo…
Obrigado por compartilhar lembranças tão bonitas!