O quebra-cabeças que dá valor à existência

Começo a acreditar que as coisas que duram para sempre são aquelas que experimentamos e planejamos na infância. Os projetos, as brincadeiras, as pessoas que fizeram parte de nossa vida nessa época, tudo isto, por mais que tenha havido distância entre as pessoas ou que as vontades tenham adormecido durante vários anos, tudo isto volta para continuar do ponto exato de onde havia parado. E parece-me que são situações e pessoas fundamentais para nossa história. Como se os destinos tivessem sussurrado sem nos darmos conta

— Vamos ali viver a vida e já nos encontramos

e sabemos que a marcação destes tempos é coisa sobre a qual não adianta especular.

Talvez isso esteja acontecendo apenas comigo, mas sei que existe uma espécie de retorno que ignora o peso do passado, como se partes da nossa história submergissem por anos, mas depois emergissem em alto mar respingando vida para todos os lados

— Onde foi que paramos?

e lá estão restauradas diversas conexões que já havíamos esquecido, sem darmos conta.

O destino, esse impulso que tenta nos coagir e sobre o qual podemos resistir brava ou idiotamente, poderia nos poupar dos desvios e das perdas, poderia nos mostrar o quebra-cabeças montado, antes de jogar as peças para todos os lados de nossa existência

— Anda ver se consegues encontrá-las, tens uma vida.

mas nós aceitamos o jogo

— Que escolha?

pior ainda, acreditamos que estamos a nos divertir um bocado ou que andamos por aí a fazer coisas que valem à pena ser contadas.

Pode ser que a nossa história só alcance algum valor se dermos a volta no destino e tentemos passar rapidamente a vista em nossa vida, mas à partir de um outro ângulo: a eternidade. Passar a vista é uma metáfora, pois não temos acesso a estas coisas

— Há-de chegar o dia, se cresceres o bastante, mas aí já não vai te servir de muita coisa.

No entanto, podemos pressenti-las ou solicitá-las com cuidado Àquele que dá nome à eternidade. Sim, pois é lá que o quebra-cabeças guarda uma imagem completa, definitiva. Sem essa transcendente vantagem, levaremos a nossa existência a catar peças aqui e acolá, algumas certas

— Só te servem as exatas

outras erradas

— E são quase todas.

Então eu tive o vislumbre dessas conexões e também emergi no alto mar da minha vida a perguntar

— Onde foi que paramos?