Da impossibilidade de acertar os relógios

Qual a idade do tempo? Qual não seria a alegria de assistir ao primeiro segundo de sua existência? E nós, seres humanos, cativos do tempo, sem poder imaginar como seria antes desse primeiro segundo, o que havia, o que haveria de estar em semente na mente do Logos,

o Logos ali

(sempre o imaginei em um lugar sublimemente alto, inalcançável ainda, pois antes do Verbo se fazer carne Ele só espírito e eu sem saber como situá-lo, visto que o espírito é um não sei o quê que não se mede e que dispensa os lugares)

do imensuravelmente alto

— Fiat Lux

Eu a imaginar como Ele pode ter dito a célebre frase se para dizê-la leva-se algum tempo, pensando para com a minha consciência

— Ao dizê-la, foi criado o tempo

e acreditando que o primeiro segundo da existência do tempo foi preenchido pelo “F” do Fiat.

Olho para o meu relógio de pulso e sei que nunca poderá estar certo, pois eu não o pude acertar pelo “F” do Fiat, eu não estava lá, e nenhum relógio agora me parece possível de bater correctamente os segundos, sinceramente

— O que isso importa?

importa sim, senhora consciência, pois queria ter o meu de pulso certinho com a batida do universo, e quando chegasse ao fim a corda do mundo queria que o meu parasse da mesma maneira, pontualmente no fim das coisas que é assim que tem de ser com tudo que se acaba: no tempo certo

— Deve ser por isso que só Deus sabe o fim dos tempos, o Único que tem o relógio certo desde o primeiro segundo de todos os segundos até o último de todos os tempos

Desanimas-me consciência, acabas comigo, já que nunca poderei acertar o tempo e agora eu perdido a achar inútil acertar os ponteiros, inútil usar um relógio, inútil olhar para o sol e perseguir às suas sombras contando os riscos no chão, e ser pego pela morte a qual deve funcionar lá pelos segundos certos e eu atrasado ou adiantado nas horas, de repente

— Acabou teu tempo

mas eu sem culpa por já ter nascido assim com os ponteiros errados, mas a morte não espera, visto que funciona pelo relógio certo, nem um segundo atrás ou adiante.

Eu a apontar desesperado para o pulso vazio, na marca branca onde eu trazia em outros tempos um relogiozito de pulso arranhado que não valia nada e a morte sem me deixar sequer falar para que não atrase o seu Fiat Lux ao contrário.

Os amigos

— Chegou a vez dele, não teve jeito…

Sim, pois, não tem jeito algum de atrasar ou adiantar quem traz seu relógio acertado desde o primeiro segundo no primeiro “F” do Fiat, quando o Logos decretou os tempos por tempo limitado e nos concedeu a ciência dos relógios, mas não a dos tempos certos, uma ausência fundamental e que nos deixa assim à deriva.