Matei o meu marido sim senhor, e daí? Andava já ressequida pela vida, abandonada junto aos móveis da casa e
(casa? isto não se parece com uma)
já não esperava nada de ti Pedro Afonso, nada, pois só ouvia-te a chamar-me pelo nome quando chegavas bêbado já tarde da noite e não era bem tu que chamavas-me, era a fome ou algo dentro da tua barriga, um bicho que rosnava para mim
— Sónia
e se por acaso demorava-me por estar fazendo algo aos fundos da casa
(insisto que não se parece com uma)
vinhas-me já a berrar
(não tu, algo que vinha de dentro de ti, da tua barriga)
a bater-me, eu a correr e aqueles passos rápidos que custavam-me visto que sem vontade de atender-te, de olhar-te, de querer-te menos que aos móveis que não eram móveis, a sala que não era sala dentro de uma casa que não se parecia com uma: a minha vida contigo não dava nem uma frase de pôr naqueles pratos de pendurar em paredes de cozinha
(tão feios, tão cafonas)
daqueles que esquecemos a encherem-se de gordura para dar com eles anos depois caídos atrás da geladeira ou de um móvel qualquer.
Por isso matei-te, e mataria quantas vezes fosse preciso, mais e melhor, com requintes de crueldade feminina como costuma-se dizer
(sou mulher, lembras-te?)
o tipo de ódio frio que arrefece um fósforo aceso apenas com um olhar de soslaio, eu que sou mulher sem que alguém notasse, mas agora fico com a casa que não se parece com uma, eu mesmo a chamar pelo meu nome
— Sónia
a dar comigo satisfeita por ser eu mesma a chamar, mesmo que ninguém, mesmo que apenas eu a andar com calma pelos cómodos
(não são bem cómodos, mas algo parecido)
enquanto todos pensam que partiste desta para pior ao cair sobre o ancinho por conta de um ataque no coração e até que não está muito distante a verdade já que tinhas mesmo um problema no coração
(Foi o bicho que o comeu, Pedro Afonso?)
um problema comigo que aturava-te e um vazio o qual eu podia ter ocupado mas não, eu antes uma empregada, eu uma cozinheira, eu uma coisa qualquer para ser chamada aos tapas e aos berros por algo que não se parecia contigo em novo, um bicho na tua barriga
(é como lembro de ti, vejo-te assim)
uma barriga imensa que abri para ver se calava o que andava ali dentro e naquilo de tentar calar ao bicho calei-te todo.
(eras um bicho ou tinhas um bicho?)
Eu aqui tão tarde da noite a imaginar-te no teu túmulo
(teu não, perdão, o túmulo do bicho que trazias na barriga, agora silenciosa como convém a uma boa e educada barriguinha de respeito)
para teu desgosto Pedro Afonso, sentada numa cadeirita junto à mesa para jantar como se fosse em cima de ti, e apesar da cadeira mal assentada
(baloiça um cisquito)
soube-me bem tanto a comida quanto o vazio numa casa que não se parece com uma e que conquistei inteira para mim com o teu silêncio.