O universo cabe dentro de dois corpos que trocam estrelas cadentes

Luzes e mais luzes a piscarem no alto dos montes: carros que indiscretamente procuram a discrição nos ermos da aldeia. Cá embaixo, nós, simples mortais desabituados ao isolamento, neste universo horizontal e fraldário, invejamos-lhos a audácia simples e a solidão escolhida.

Casais que se escondem dentro de caixas de metal luzidio, entre eucaliptos e pinheiros discretíssimos, envidraçados, embaciados por estarem aquecidas demais as palavras e os olhos.

A escuridão das altitudes, os olhos das caixas de metal já apagados, a indiscrição consolidada na discrição conseguida, tudo isto desaparece quando o mundo se torna imenso ao atravessar a ponte que existe entre dois corpos.

Cá em baixo, alguns velhos a invejarem a audácia da juventude que não se aguenta, impingindo-lhes uma culpa que os casais na flor da idade desconhecem ou fingem desconhecer em benefício da irresponsabilidade, esta que sempre será perdoada com a sucessão dos tempos e com o advir da maturidade. Outros velhos a torcerem-se de satisfação, revivendo seus tempos de altitude e isolamento, quando ainda nem existiam caixas metálicas luzidias e tudo era de um frio insuportável, mas suportado em benefício das mesmas irresponsabilidades e da mesma esperança no porvir amadurecido.

Depois, os olhos das caixas metálicas acendem-se novamente, mas seus passageiros ainda não enxergam nada lá fora: os olhos deles ainda não se desprenderam um do outro, olhos que trocam faíscas, mais luzidios do que o metal do automóvel que os carregam monte abaixo. Qual frio, qual motor, qual farol a chamar a atenção, qual mundo, qual nada: o universo passa a caber dentro de dois corpos, dois corpos a trocarem estrelas cadentes que atravessam cortando o espaço, a perderem-se nos buracos negros dos olhos de dois jovens apaixonados.