Não trouxe nenhum raio comigo

Noite passada, eu arrumei a cadeira junto ao muro que dá para a rua

(um murinho baixo, com grades proporcionais).

Levei comigo cigarros, uma chávena de café e um copo de vinho branco. Sentei metade de mim debaixo da varanda e a outra metade sob o sereno. Cruzei as pernas em cima do muro, puxei do cigarro e passei horas a olhar para o céu estrelado. Havia uma batalha impressionante entre as estrelas e as nuvens

(a lua não se via)

da qual as estrelas saíram vencedoras.

Nunca tinha estado naquele ângulo a olhar para o céu, no entanto, era como se o canto já fosse meu desde os anos de infância. Isto foi na casa de minha avó materna, em Portugal; então, como nos meus domingos de miúdo eu ia para a casa dela no Brasil, estabeleci uma ponte entre a pausa dos anos e a mudança geográfica.

Ouvi o som da noite

(os grilos e os outros bichos do mato alguém os trouxe por mim, pois eram os mesmos sons de quando eu era miúdo)

e ao ver alguns aviões a riscarem com um pinguinho de luz no céu noturno

(eles nem aí para a batalha que atravessavam, os arrogantes)

era como se escrevessem alguma mensagem para mim, aquietando-me o espírito. Fixei tanto o olhar que fui puxado por eles: acompanhei os aviões e fui engolido pelas nuvens, encontrei uma arca repleta de raios para a próxima tempestade e uma orquestra de anjos a ensaiarem trovões em si bemol. Estiquei os braços e agarrei mais forte ao avião

(eu ainda não tenho asas mas em breve terei, pois me prometeram um par delas, novinhas e com design personalizado)

e assim que deixei aquela nuvem joguei-me sem pensar nas consequências. Na medida em que ia descendo avistei a ponta de um cigarro aceso e me descobri com um sorriso de lado e os olhos esgazeados para o céu de onde eu caía. O impacto foi silencioso e suave. Deitei-me em mim mesmo e passei mais algumas horas a relembrar das viagens que já fiz nesta vida e que não me custaram nada, apesar de impagáveis. Depois peguei os meus acessórios e entrei em casa como quem chega de longe. Todos já dormiam. Antes de ir deitar fui lavar o chamuscado dos aviões e reparei num si bemol que veio agarrado no meu cabelo.

Foi então que me dei conta: eu podia ter metido a mão dentro da arca de raios e ter trazido alguns comigo. Tenho a certeza de que me vão fazer falta.