Sempre tive associações com o vento. Lembro-me de tardes em que ficava sentado na calçada de cimento entrecortado por sombras de amendoeiras e de repente tenho as amêndoas brasileiras
amargas e imastigáveis, sem que eu atine com o motivo de se chamarem amêndoas
a caírem sobre a cabeça e o vento a baloiçar um punhado da minha franja. O cheiro do vento morno que eu acreditava ser o mesmo que havia percorrido desertos minutos antes de chegar ao meu rosto
o vento levante, carregado de mortes e animais que se desenterram a si mesmos quando anoitece
e a desilusão de descobrir que era impossível tal velocidade e estabilidade dos ventos.
Depois, as tantas incursões por caminhos de mistérios, os quatro ventos a afiarem os dois gumes da espada ritualística e os meus acenos com os dedos tentando mover a natureza que eu supunha às minhas ordens
sempre o vento…
Agora a tarde, em Trancoso, estive a ouvir algumas histórias do vento e a fiscalizar o trabalho das nuvens. Reparei no redemoinho de flores que se formou na calçada à minha frente, uma espécie de brincadeira da natureza.
Uma pessoa passou do outro lado do Largo e recebi um aceno com os dedos e um sorriso que me trouxeram lágrimas ao vidro dos olhos
o vidro sempre muito resistente
sem que eu esperasse que tal acontecesse. Um sorriso simples e simpático, um gesto rápido, mas carregado em contínuo com os passos apressados e com um propósito predefinido bem ajustado ao tempo
o vidro resistente, apesar de embaciado
foi uma cena inteira para o único observador disponível. Foi então que a dialéctica interior se quedou esgotada, sem conclusões e, no entanto, sem me abandonar
o cadáver dialéctico estendido atrás do vidro dos meus olhos
o vidro desistindo, impaciente
como parte de mim, mas que não depende de mim. Conforme a amêndoa brasileira de minha infância, que não tem o direito de se chamar amêndoa: amarga, imastigável e, ainda assim, impossível de ser engolida de uma só vez.