Anotações do Caderno Escuro de Frieditz

(1) Não acreditamos no mundo à nossa volta. Acreditamos em nossos medos, ódios, anseios, em nossos problemas. De certa forma, substituímos o mundo real e independente de nós pelos nossos sentimentos interiores. O mundo externo torna-se apenas um lugar onde podemos colocar os pés, uma coisa onde podemos agarrar quando tropeçamos.  Não suportamos a indiferença do mundo em relação aos nossos problemas, então escolhemos retribuir com uma indiferença humana. O problema é que nossa indiferença não é pura: é intencional; a da natureza, não.

(2) Às vezes apetece-me dormir na rua. Como agora: o sol fraco, o vento forte, um maço de cigarros e uma chávena de café. No entanto, um senhor, o barbeiro, passa por mim e diz: “Estás com sono”. Respondi que não: “É preguiça”, mas não fui exacto. Apenas apetecia-me dormir na rua. Esta coisa tão difícil de explicar aos outros.

(3) Duas casas e uma árvore estão a formar com seus ângulos um pedaço azul do céu que não pode ser percebido de todos os ângulos. Apenas deste.

(4) Hoje é um dia como outro qualquer. Não é fascinante?

(5) Não gosto de barulhos repentinos. Por exemplo, uma moto que é ligada e acelerada inutilmente, antes de se mover. São sons inúteis. Um desperdício imperdoável de silêncio.

(6) Outro exemplo: um senhor estava a gritar no Largo de Trancoso: “Eu comi à tua casa, não sou burro”. Berrava absurdamente. Não percebi motivo algum para crer que ele seja burro (preciso de evidências para crer que alguém seja mais ou menos burro), mas tenho a certeza de que é mal educado. Desperdiçar silêncio é um dos sinais mais visíveis da falta de educação. Um sinal irritantemente evidente, diga-se de passagem.