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		<title>Não me esqueço de mim mesmo, então posso me sentir só.</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Oct 2009 23:46:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Roldão</dc:creator>
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	<itunes:summary>Enquanto escrevia, esta era a música que tocava:

Veja, a rua está vazia. Um carro passa, mas não pára. Tudo tem que passar: as ruas, as casas; nós estamos de passagem, por mais que eu permaneça madrugadas à janela, sem que eu perceba, já não é a mesma paisagem, também não pareço o mesmo, apesar de ser; mas como?  Veja, sei quem sou. Por isso, posso me sentir só. Sou eu quem vê as paisagens, as madrugadas que vão e vêm, as ruas, as casas… Também estou de passagem, por mais que eu me esqueça disto em um piscar de olhos (é preciso sobreviver): temos vidas e mais vidas coladas na pele da memória. Por isso, eu sei quem eu sou. Sei quem sou porque me lembro de todas estas coisas, por mais que pisque os olhos, infinitamente…
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<itunes:subtitle>Enquanto escrevia, esta era a música que tocava: Veja, a rua está vazia. Um carro passa, mas não pára. Tudo tem que passar: as ruas, as casas; nós estamos de passagem, por mais que eu permaneça madrugadas à janela, sem que eu perceba, já não...</itunes:subtitle>
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		<title>Do que tratam estes latidos todos?</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Oct 2009 01:49:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Roldão</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Acho que os cães entediam-se em certas madrugadas e põem-se a latir, resmungando para outros cães. Pode ser que exista uma linguagem (de certo que há) e percebo que eles se comunicam a outros mais distantes (ou se desentendem?) em alguma disputa indecifrável para nós,...]]></description>
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	<itunes:summary>Acho que os cães entediam-se em certas madrugadas e põem-se a latir, resmungando para outros cães. Pode ser que exista uma linguagem (de certo que há) e percebo que eles se comunicam a outros mais distantes (ou se desentendem?) em alguma disputa indecifrável para nós, humanos.
 Estão lá os cães a latir.

São quase duas da madrugada e até os carros na rodovia passam lentamente (nas pontas dos pneus) para não atrapalhá-los.
Há certa prioridade aos latidos na madrugada (já perceberam?) e nessas horas tudo a volta parece silenciar. Só os cães ladram entre si: uns aqui nesta rua, outros mais distantes, latidos roucos, uns fracos, outros fortes, uivos, e de repente todos ao mesmo tempo como se a discussão chegasse ao auge dos impropérios (todos os cães com as patas à cabeça não acreditando no que acabaram de latir uns aos outros).
O homem que anda sempre a catar velharias nas lixeiras solta um assobio apaziguador sem grande sucesso: apenas uma leve pausa (e eles pausam ao mesmo tempo como se não houvesse espaço, a distância enorme entre todos os cães) e vou à janela
— Do que será que se trata?
O homem franze a testa levando a mão aos olhos enquanto olha para cima sem me responder
(seus óculos estão sujos que bem o vi)
e não me entende, acho que não me ouviu perguntar, e tanto faz, pois os cães desistiram do assunto (pudera, eu me intrometi a querer saber do que não me interessava) e volto cá para dentro envergonhado por meu tamanho mal jeito.
Mexi na ordem das coisas modificando a madrugada e agora eu aqui sem saber o que fazer. O homem que cata coisas deve estar lá a pensar
— Larga esse cigarro
Ele sempre que fala comigo quando estou à janela não parece ter outra frase e eu
— Que nada
sem paciência com estas coisas da mesma forma, sem novidade alguma nem improvisação que valha, eu com aquele sorriso que se traduz em
— Isto é uma chatice do caraças, meta-se com a sua vida
(com o “caraças” vai sempre a homenagem ao meu falecido avô que mo repetia em criança)
Passado este impasse imaginário (porém verossímil) deito estas palavras ao teclado  que os cães já se calaram, decerto que já foi resolvido aquele impasse.
Deu-me cá vontade de entender esses latidos todos
— Do que será que se tratava?
…o catador das lixeiras dos outros vira à esquina da rua onde vive, como se tivesse acabado de cumprir alguma missão importante…
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<itunes:subtitle>Acho que os cães entediam-se em certas madrugadas e põem-se a latir, resmungando para outros cães. Pode ser que exista uma linguagem (de certo que há) e percebo que eles se comunicam a outros mais distantes (ou se desentendem?) em alguma [...]</itunes:subtitle>
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